Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

26
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Cinco


Longocaminhoparacasa

45-COLLAGE

 
No céu, a noticia já era conhecida mas faltava partilhar a boa noticia pelas terras do seu vale encantado, no solo do seu retiro.
Retiro que remonta à época em que de Portugal nem o nome existia e o seu território, tal como hoje é constituído, fazia parte integrante da Península Ibérica.
Portugal não existia, mas este vale já existia, neste pequeno trato de terra surgido na Idade Média, o concelho de Tarouca.
Os Lusitanos, foram provavelmente os seus primeiros habitantes. Alguns historiadores consideram-nos já o resultado da fusão de Iberos e Celtas, cujas migrações se perdem nestas terras nas noites doutros tempos.
São testemunhas o castro de Mondim e de Castro Rei, onde nele foram encontrados vestígios dos Lusitanos, tais como casas, mós, objectos de cerâmica, machados de pedra polida.
Lamego foi um lugar onde os Romanos estabeleceram sólido domínio. Ora sendo tão perto de Tarouca e sendo suas terras tão férteis, é lógico que para aqui fossem atraídos, pois ainda hoje existem vestígios de estradas romanas.
Da permanência dos Árabes chegou até aos nossos dias a lenda do Penedo Encavalado, do Penedo da Meada e as que se referem à origem de povos, como Gouviães e Eira Queimada.
Em Tarouca Igreja Matriz de Tarouca, houve um castelo árabe que, em 1063, D. Fernando Magno, rei de Castela, veio submeter, depois de conquistar Lamego.
No onomástico do concelho há palavras árabes, como Almofala e Alcácima (Alcáçova), este ultimo é um morro onde existiu o castelo, na vila de Tarouca.
O Conde D. Henrique e seu filho Afonso I entregaram-no, com outras terras limítrofes, aos fidalgos, ricos homens e donos da sua côrte.
A Egas Moniz coube Salzedas (Algeriz) Gouviães; Tarouca, a Sancho Nunes; Dalvares, a Eldra Martins; e outras terras a Paio Cortez, D. Paio Viegas, Estevam Guilherme e Martins Passial.
Estes, com colonos do Minho, reconstruíram as povoações arrasadas em lutas de raça. Entretanto fundaram-se os dois mosteiros de S. João e Salzedas.
É provável que a fundação de Tarouca remonte ao último quartel do século XIII.
Mais tarde também se chamou Castro Rey. Com este nome recebeu foral de D. Afonso III a 11 de Dezembro de 1272. A antiga povoação de Tarouca foi quase sempre cabeça de concelho; mudado o seu nome, este não subsistiu por força da tradição. O primitivo concelho de Tarouca limitou-se quase só à freguesia da sede, com seus lugares; mas esta era muito extensa e contava muitas povoações.
Em 1898, o Concelho de Tarouca foi restaurado, tendo-lhe sido anexada a vila de Mondim com parte das suas antigas freguesias, ficando, até aos nossos dias composto de 10 freguesias:
Tarouca, Dalvares, Ucanha, Gouviães, Salzedas, Vila Chã da Beira, Granja Nova, Mondim da Beira, S. João de Tarouca e Varzea da Serra.
Sobreviveram a beleza das suas paisagens e numerosos vestígios do seu passado glorioso, tais como igrejas monumentais, seu valioso recheio em obras de arte, ruínas de ricos e importantes mosteiros, pontes medievais entre outros documentos históricos que atestam a sua importância através dos tempos desde antes da fundação da Nacionalidade.
Possuidora de todo este rico património, foi entregue na Assembleia da República uma proposta de subida à categoria de cidade. Posta a votação na Assembleia da República no dia 9 de Dezembro de 2004, foi aprovada pela maioria dos deputados passando assim à categoria de cidade. (Bibliografia: Monografia do Concelho de Tarouca do Ab. Vasco Moreira)
Tal vale encantado.
A verdade é que nem sempre é preciso atravessar oceanos para se deixar encantar.
Era a fuga preferida de Maria. Quando algo não estava bem, quando era preciso comemorar, era naquele vale que ela se ia refugiar.
Lá aproveitava o amanhecer, ainda sem demasiado calor para passear pelos caminhos perfumados com casas de pedra desenhadas em amplas janelas e varandas debruçadas sobre montanhas que crescem de vales silenciosos, imensa e deliciosamente vivos!
Onde tudo é vivo, tudo é calmo, tudo existe e é saboreado com complacência e parcimónia.
Os sabugueiros colhidos há pouco perfazem um rasgo de vermelho na correnteza das estradas.
O tempo soa nas horas do sinos das igrejas.
Algo alvoroça os cães da vizinhança. Um ténue nevoeiro impõe-se sobre o vale: parece um fumo parado que faz carecer de real os montes circundantes, numa mudez imóvel.
A Torre da Ucanha, a praia fluvial de Mondim da Beira, o Mosteiro Tarouca, o altivo mosteiro cisterciense de Salzedas, verdadeiras jóias do nosso património.
Respiram-se percursos que cambaleiam nas franjas dos tempos de uma vivência outrora, quais paredes sustentadas pela inércia e pelo conformismo de uma desilusão antiga.
Lembra-me um outro lugar, onde um ancião cego escondia recordações escritas nas fendas das paredes...
À saída do mosteiro e um pouco mais à frente, a judiaria, em ruínas mas de atmosfera recôndita, convida a um deambular que, apesar de curto, nos remete para uma época medieval, onde as construções se interligam através de invulgares passadiços desta aldeia vinhateira.
Sentem-se os passos da demora na escuridão da pedra, flutuando no espaço envelhecido, como que dores inúteis da decrepitude.
Luis e Maria, chegaram ainda antes do almoço. Podiam perfeitamente ter parado no caminho para comer numa qualquer estalagem à beira da estrada. Mas a ansiedade era tanta como a pressa de chegar.
Almoçaram e Maria lança a bomba como sobremesa.
Nos olhos do pai, Maria pôde ver um espelho de lagrimas de alegria.
- Então quer dizer que vou ser avô?
- A mãe deixou cair as palavras num silencio de um sorriso demasiado alegre para ser interrompido.
Aquele vale, nunca tinha sido sentido por Maria com tanto vento de alegria e felicidade.
Apreciaram um final de um dia estrondoso: uma leve sombra calma do anoitecer deu lugar a um céu negro profundo, longínquo e irrevogável.
À ceia, os reposteiros pesados e floridos convidaram à inércia e ao torpor, depois de um almoço em que se cozinhou e degustou o repasto regado a longas conversas até que a penumbra venceu o cansaço, e Maria se sem demoras, até sentir o amanhecer.
Domingo de manhã, sentada na beira da cama de soleira mas de casal, Maria ouvia o chilrear dos pássaros e o coro dos galos e gansos, que afincadamente entoa um cântico harmonioso.
Sessão interrompida pelo toque de telemóvel de Maria.
- Sim?
Sim sou. Mas como ? Probabilidade? Positivo?
Amanhã? Não não posso não estou em Lisboa, responde Maria.
Mas na ecografia estava tudo bem! O Dr Amadeu, disse que estava tudo muitíssimo bem!
Não, amanhã vou para Lisboa, mas vou trabalhar. Vou ao escritório deixar tudo preparado, e depois vou aí à clinica buscar o resultado, e depois logo marcamos.
Maria tentou levantar-se, mas as pernas não deixavam.
De repente, nada se mexia, apenas um ou outro insecto zumbia no remanso daquela paisagem que se transformou negra .
Molhada pelas lagrimas, arrasta-se até à porta e de cima das escadas vê o pai, a mãe, e Luis.
Desata num choro que não a deixa contar.
Maria, é acalmada pelo pai que lhe diz:
- Calma, isso não é assim. Não pode ser assim! Um não diz uma coisa e outro outra. Alguma coisa não está ai bem! Eu que nao percebo nada mas, calma….
- Maria retém o momento que lhe deu uma confiança inexplicável que alguma coisa não estava bem…
- O tempo escorre sem pressas, ante a partida irrevogável.
 
CLR
21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Dois


Longocaminhoparacasa

42

Ela, 

Bom, para ela havia sempre aquela coisa boa e bonita da serendipidade, do desejo imensurável de sorver da vida tudo de bom o que ela tem para lhe conceder. 
Luis apesar de não frequentar estádios de futebol, nem pistas de atletismo, representava para Maria o calor do sol.
E, havia na vida de Maria uma espécie de Sol. 
Um calor!
Aquela estrela que ela colocava no seu céu, todos os dias.
A relação de Maria com Luis, havia levado um abanão, mas, com ele reconstruíram os alicerces, e aproveitaram o calor do sol, para os guiar até casa.
E assim Deus, resolveu colar-lhe novamente uma semente forte e segura, resistente e lutadora, que lhes permitiu cumprir o prometido e festejar o desejo que tanto ansiavam.
Mas, desta vez Maria, queria certificar-se que fazia tudo certo, que não era sua a culpa do que havia acontecido, mas fruto da natureza, da mãe natureza que dizem ser sábia.
Acompanhados pela nova médica escolhida, Maria e Luis decidem fazer o Rastreio combinado precoce, que ocorre em duas fases.
Numa primeira fase, em que é feita uma colheita de sangue entre as 9 e as 12 semanas, combinado com um rastreio ecográfico, uma ecografia que é feita entre as 11 e as 13 semanas. 
E o Rastreio pré-natal de segundo trimestre, que consiste em mais uma colheita de sangue realizada entre as 14 e as 22 semanas para análise bioquímica de Alfafetoproteína (AFP) e Gonadotrofina Coriónica Humana livre (free β-hCG). 
Foi-lhes explicado que este rastreio de 2º trimestre detetaria mais de 98% dos bebés com anencefalia, 90% dos casos de espinha bífida e 80% dos casos de Síndrome de Down e trissomia 18.
Foi-lhes apresentado e rigorosamente “vendido” como o maior avanço na área dos testes Pré-Natais não invasivos, para o despiste das três principais Trissomias (T21, 18, 13) e aneuploidias relacionadas aos cromossomas sexuais (X e Y). 
Permitia a identificação das grávidas que têm um risco aumentado que o seu bebé apresente uma anomalia congénita.
Maria e Luis estavam cientes que o Rastreio Bioquímico Pré-Natal não era um exame de diagnóstico, isto é, dá-lhes-ia apenas a probabilidade de terem um bebé com problemas graves de saúde 
O resultado desse teste ser-lhes-ia apresentado como uma mera probabilidade que era calculada com a conjugação, informática dos parâmetros pessoais de Maria, e os resultados dos parâmetros bioquímicos determinados no sangue, e ainda os parâmetros fetais obtidos por ecografia. 
Tanto na primeira colheita, como na segunda, num sábado de manhã, Maria e Luis, que sempre fez questão de a acompanhar em todas as consultas e exames, dirigiram-se a um laboratório de reconhecido mérito na area destes testes e de analises clinicas
Foi-lhes entregue umas folhas de papel A4, onde deviam preencher vários elementos pessoais de Maria, que eram necessários à determinação do tal risco! Nomeadamente, a data de nascimento, o peso, os hábitos tabágicos/ Diabetes, a Etnia, se era Gravidez resultante ou não de fecundação in vitro (FIV), se haviam Filhos anteriores com Síndrome de Down, etc.
Preencheram a ficha, Maria fez a colheita de sangue necessário e foram-se embora à procura de um pequeno, grande almoço.
A ecografia foi realizada por um conceituado médico da área, que Maria já conhecia há alguns anos, e no qual ambos tinham plena confiança.
CLR

21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Um


Longocaminhoparacasa

                                          trpolice (1) 

 

Ela...
O caminho, o percurso, a estrada, havia de ser sempre escolhido, sentido, desenhado por si.
Maria adorava desenhar, pintar, correr, escrever, sentir a natureza a praia, o campo, o rio, as flores, os cheiros tudo lhe deixava marcas, tudo lhe trazia lembranças, tudo fazia parte de si.
Pintar, era outro dos seus passatempos preferidos. Outro escape a juntar às corridas, ao exercício, à escrita, a pintura.
Quando não havia mais gavetas para arrumar, Maria desenhava e pegava numa tela, nuns pincéis e algumas tintas e escrevia na tela o que lhe ia na mente.
Arrumava as gavetas, dava uso aos ténis, coloria telas, escrevia blogs, e preenchia as folhas vazias do seu diário com o mapa do caminho por si sentido e percorrido.
Maria pensava que mesmo que nalgum dia se perdesse, por ter atravessado tantos caminhos cruzados, nunca se iria arrepender do seu passado.
Olhava para trás e via várias linhas, umas mais marcantes do que outras mas nenhuma havia sido insignificante. Todas tiveram o seu propósito. Todas elas importantes!
Maria já havia gostado bastante de futebol. Quando andava no secundário, um dos seus passatempos preferidos chegou a ser ir com algumas colegas ver os treinos de um dos grandes clubes da Segunda Circular. Por e simplesmente o Clube do seu anjo.
E como era lindo ver aquele casal de velhotes, amorosos, a transbordar felicidade e amor de mão dada nas bancadas, devidamente trajados à altura a assistir a um dos seus programas preferidos! Um jogo do seu SCP!
Só a imagem já cheira a amor. Casal mais unido, mais puro de maior cumplicidade, de tudo o que se pode imaginar e querer!
Olhar e ver aquilo é sentir, “só eu sei, porque queria muito encontrar aquele caminho para mim”, pensava Maria, a ver os avós de mãos dadas, completamente apaixonados, a trocarem mimos, nos seus passeios por Lisboa.
Maria sorria, quando ouvia a avó a cantarolar, de entre outras canções, a do hino do Sporting. O Clube que lhe enchia o coração de pulos, e lhe fazia subir a tensão, deixando-a ao rubro a assistir a qualquer partida, quanto mais quando do alto dos seus mais de 90 anos, ia com o seu amor, amado, amante, namorado, marido, amigo, companheiro da e para vida, namorar para o estádio do seu clube, não havia coração que aguentasse.
Nem o de Maria que se vertia em lágrimas de alegria e emoção ao vê-los...
Eram o exemplo mais querido! Aquele caminho que Maria queria encontrar e seguir!
Já estavam as estrelas no céu, e com esse pano de fundo, Maria decidiu aceitar por algumas vezes ir aos estádios, na tentativa de atingir aquele clímax que se habituara a assistir.
Numa das vezes foi a convite do Gabriel, bancada VIP, que Maria aceitou não por ser o seu Clube mas por ser o Clube dos seus anjos. Talvez assim o seu sonho tivesse mais perto de se realizar, pensou Maria.
Uma aventura bastante engraçada. Digamos que, nunca viu tanto VIP a cantarolar tanto palavrão em tão pouco metro quadrado!
Maria delirou e sorriu! Gabriel como sempre o cavalheiro, apenas preocupado com a luz do telemóvel de Maria que não se apagava nem por nada!
É melhor atenderes, sugere Gabriel, com um sorriso malandro, deixando escapar o comentário “Eu também ficava em stress se soubesse que a minha namorada se estava a divertir tanto, e com um sorriso tão bonito como está, e....se ela não me atendesse o telemóvel!
- Vá não sejas mauzinho, responde Maria!
Estou assim com um sorriso tão bonito?
- Queres mesmo que te responda? Pergunta Gabriel.
Aquela aventura tivera a sua graça, como todas as que passavam juntos.
Acabou com um jantar na Avenida da Liberdade, e uma série de gargalhadas, quando deixou Maria perto do seu carro e do arrumador enfurecido, que lhe riscava o carro.
Maria era mulher de luvas, e não deu duas gargalhadas, saiu do carro sem se despedir e vai direita ao alvo, deixando Gabriel completamente boquiaberto e desprevenido.
Valeu-lhes Garry e a fuga do arrumador perante a genica de Maria, completamente descontrolada de fúria.
Garry! Lá estava ele de novo!

Noutro dia, Maria visitou a catedral, com o seu querido Manu, vindo do reino dos Algarves, com direito a cachecol e tudo! Esse sim, teve direito a sonhar. Viu as estrelas a brilhar no céu.
Festejos, porque o glorioso também ganhou, cada vez que Maria ia ao estádio, o seu clube tanto o do coração, como o de empréstimo, ganhavam sempre!
Naquele dia até ganharam uma corridinha de fuga entre tamanha confusão de claques, policias, e mal feitores como os de Maria, Manu e os amigos deste!
Não fosse Maria corredora, não estivesse habituada a correr, não se cruzara com aquele sonho, de aroma forte e doce, que a seguiu até ao beco.
Maria encetou a fuga e segundos depois, sentiu que era perseguida. O seu coração saltava de medo, e na sua mente só pensava nas nódoas que iria ter, ou na visita da esquadra desta vez sem toga. O que lhe pairou na mente deu-lhe mais força para correr ainda mais, mas as forças estavam a esgotar-se e a multidão, transformou-se em ainda mais confusão.
De repente sentiu um puxão no braço que a arrastou para uma esquina de um prédio.
Maria primeiro, cerrou os olhos, depois, sentiu um aroma familiar, e num sussurro apertado num abraço sentiu e ouviu um tem calma, fica aqui amor. Fica aqui.
Maria mal o conseguiu reconhecer, com aquele fato, mas aquele cheiro, aquele aperto, aquele abraço, aquele beijo na testa e aquela voz... Era António! Maria não conseguiu dizer uma palavra.
Antonio levantou-se e ordenou aos camaradas, que seguissem em frente.
- Vieste sozinha? Perguntou António
- Não, responde Maria, ainda a tremer.
- Então e o parvalhão do gajo que te trouxe está onde? Pergunta Antonio
- Maria levanta o olhar e vê Manu à sua procura do outro lado da estrada, e acena com a cabeça.
- António, dirige-se a Manu chama-o.
Manu identifica-se, e António irritadíssimo ordena-lhe:
- Bem, leva-a daqui em segurança se fazes favor, achas que és capaz?
Maria ficou ali, sentada no chão ainda por um bocado, a sentir o corpo a tremer, até que Manu lhe dá a mão e a ajuda a levantar.
Acompanha-a até ao metro e onde duas linhas se cruzam, cada um seguiu o seu caminho.
Onde duas linhas se cruzaram... Cada um segue o seu caminho.
Maria segue de carro, até casa, sentindo que o clímax dos estádios tinha acabado!
O amor já existia!
Só precisava de encontrar o caminho até casa.
Cruzasse as linhas que cruzasse, caminhos que encontrasse, estradas que percorresse, o seu caminho era o mesmo!
E o sinal era o de que, estava sempre a cruzar-se com o caminho, o caminho de casa!
CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Três


Longocaminhoparacasa

                                           33

Maria tinha voltado a sonhar como seu anjo mas naquela noite, sentia aquele apoio duplamente maternal ao rubro.
- Não tens de te preocupar, só tens de seguir o teu coração, e cuidar de ti meu doce, cuidar de ti! Percebes o que te quero dizer? Faz o que te propõem, mas tudo de olhos abertos. Decide com a cabeça minha querida.
Maria acorda sobressaltada, com o coração a saltar-lhe do peito.
Aconchega a cabeça na almofada e agarra-a com tanta força, que sente estalar cada osso que tem nas mãos. 
E num soluço de grito molhado, sente o aconchego do seu anjo na cabeça.
Aliviada Maria, sente que tomou a energia necessária para seguir em frente e enfrentar o que fosse preciso.
De repente toca o telemóvel, Maria.
- Estou amor, é só para te mandar mais um beijo, e já agora saber onde nos encontramos, pergunta-lhe Luis
- Não sei., responde-lhe Maria
- Já estou a caminho, apanho-te em tua casa, estou a conduzir tenho de desligar, beijo, até já, responde-lhe Luis apressadamente não porque estava a conduzir, mas porque temia que Maria mudasse de ideias. 
Após bastante insistência, Maria tinha aceite que Luis a acompanhasse na consulta que tinha marcada com a médica.
Maria sentia o peso do apoio no braço que tinha pelos ombros. 
No percurso até ao carro, de vez em quando, Luis, puxava Maria até si, e dava-lhe um beijo na cabeça, segredando, vai correr tudo bem vais ver. Não vai acontecer nada, vai correr tudo bem!
Entraram no carro e o silêncio permanecia. Só era interrompido pelo olhar que Luis lhe deitava aquando de cada paragem que teve de efectuar aos sinais vermelhos. 
-Estás bem?, perguntava-lhe Luis, seguido de mais um abraço e um beijo.
Hein?
- Sim. disse Maria em voz sumida, esboçando um sorriso numa tristeza e medo muito mal disfarçadas.
- Tem calma, ela é uma excelente médica e foi Directora de Serviço do IPO, pelo que é muito competente, não achas? Não confias nela? pergunta-lhe Luis, numa tentativa de desbloqueio do silêncio de Maria.
Fala comigo amor ! Maria, estás bem? insiste Luis, enquanto estaciona o carro.
- Sim, responde Maria. 
Quero pedir-te uma coisa, solicita-lhe Maria
Se não te importas, eu subo sozinha, porque estou a precisar de dormir, e ficar sozinha comigo e com o meu pensamento.
- Não, Maria. Eu prometo que não te digo mais nada. Faço-te o jantar, levo-te o Rex à rua e fico no meu cantinho. Jantas sozinha no quarto se quiseres, e se quiseres até posso dormir na cama do Rex. Agora não me peças para te deixar sozinha hoje, por favor.
Eu escondo-me na dispensa, ok? Responde-lhe Luis em tom demasiado agudo e convicto.

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Dois


Longocaminhoparacasa

                                         32

Um dia quando olhares para trás verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste!
Não podia estar!
Aquilo não era normal, estava tudo menos bem.
Mal aqueceu a cadeira, resolve pegar nas pastas dos processos denominados por si “112”, e saiu porta fora.
Abriu a porta de casa, e foi em direcção ao espelho da casa de banho onde tentou reconhecer aquele rosto, mas sem sucesso pensou, tenho de resolver isto.
Sentou-se na secretaria e ligou o computador.
A piscar a janela do Messenger, 
- Bom dia, beijo
Tem um bom dia, como estás sentes-te melhor?
- Olá bom dia, então como estás?
- Eu estou bem, e tu estás melhor? - pergunta Luis em modo preocupado e afectuoso.
- Estou hoje até fiz gazeta!, responde Maria a tentar amenizar a coisa.
- A sério, jura? A sério? Só falta dizeres que até já foste fazer a tua corridinha diária matinal!
- Não isso não fiz.
- Quando vais ao médico? Quando vais fazer os exames? - pergunta Luis angustiado.

CLR

 
15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Três (2ª parte)


Longocaminhoparacasa

         23 2

 

LONGO CAMINHO PARA CASA – VINTE E TRÊS (continuação)

Bem, na verdade, este sentimento é confirmado por todos aqueles que lá entraram, e que conheceram um pouquinho do seu coração, que conviveram com o seu sorriso. Esses raramente querem sair…
Maria, estava agora em frente a mais uma mazela, mais uma ferida. Mais uma mágoa, mais uma cicatriz. E desta vez sentia-se verdadeiramente derreada, enganada, e vencida pela mentira.
Mais uma vez a mentira, a confiança havia sido quebrada, e o coração estava despedaçado. 
Mas, agora havia que seguir em frente… Limpar as lágrimas e primeiro resolver as coisas. Depois, o que tiver que se arranjar, os pedaços do coração que tiverem de ser concertados ou curados, o que tiver que ser feito, Maria fará. Seria desta vez que Maria fechava o coração para o reino deste mal?
Maria, resolveu escrever. Os desabafos passados a letras amorteciam-lhe a dor, passando a ser um óptimo medicamento.
Um blog, de uma ninfa, cheio de chocolate, desabafos e amor.
Naquele dia Maria escrever:
Hoje
Hoje desejo recordar 
quem por mim passou.
Hoje apetece-me desejar 
os abraços e os beijos,
as palavras e os olhares,
o amor desenfreado
o desejo a latejar
os sorrisos e os toques
os momentos de mãos dadas a conversar
os corpos
na loucura do desejo 
e os jogos proibidos
as promessas de prazer que ficaram por cumprir
as mensagens loucas a meio da noite 
e aquelas que nunca chegaram...
Hoje apetece-me recordar 
sentimentos e momentos
os sorrisos e as lágrimas, 
misturados algumas vezes
com a conquista do amor e do prazer...
Hoje QUERO recordar 
quem me fez sentir desejada e amada
quem me secou as lágrimas da alma
quem me fez abrir o coração
quem me soube ler e sentir
quem me fez sorrir.
Hoje RECORDO o quanto amei 
penso em quem desejei
e um dia chegou à minha vida 
e nunca dela quis sair...
HOJE

CLR

 

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte


Longocaminhoparacasa

20

A noite estava estrelada. 
Do manto azul brilhavam sinais de uma ninfa docemente envolta em chocolate, ora doce, branco, ora amargo, saboreado ao som de um Primeiro beijo, Paixão, ou o Prometido é devido, com um cavaleiro andante que mais tarde soou a não queiras saber de mim, e nunca me esqueci de ti.
Tudo por causa das pontes. 
Do seu significado já luzia a convicção que nada se poderia construir, porque nada havia para construir se não mais uma amizade. 
Maria tinha fechado o coração ao mundo.
Tinha criado um muro, onde protegia um mundo só seu, onde só deixava entrar quem fosse insistente e lhe provasse ser digno e merecedor da sua confiança. Por isso nada mais ofertava se não uma amizade, e alguns sorrisos.
De peito aberto, seguiu como quem pega numa folha em branco e confiantemente, começa a rabiscar o desenho que imaginou.
Desenhou e pintaram mais, mas começaram por desenhar aquela amizade.
Fizeram-no e fizeram muitíssimo bem, de tal modo que construíram uns alicerces que permitiam a construção de um aranha céus.
Uma afeição, uma estima, uma simpatia, apreço, um apego, uma cordialidade linda, que construiu uma amizade maravilhosa e robusta que perdurou e perdura ao longo do tempo. 
Ambos ganharam, lucraram daquela uma amizade maravilhosa que ofertaram naturalmente um ao outro, como se oferecem flores, a quem gostamos e recebemos com sorriso, de quem gosta de nós…
Com ela, ou com eles, o comboio seguiu…
O nascer do sol era cada vez mais lindo, aos olhos da Maria brilhavam cada vez mais, e tudo parecia crer que aquele havia de ser um dia especialmente deslumbrante e inesquecível para ambos…
Sem a mínima expectativa, sem nada esperar, sem nada sonhar…
Estavam a conceber um novo amor, uma paixão, construída sobre uns alicerces de uma amizade inabalavelmente inquestionável.

CLR

15
Mai19

Longo Caminho para casa - Dezanove


Longocaminhoparacasa

19

 

Aquela imagem, aquele reflexo...
De estetoscópio a bisturi, inexplicavelmente trocado pela dourada espada numa fase inicial, e posteriormente pelo escudo, capacete, bastão e algemas. 
Primeiro os códigos e depois a toga, cruzaram-se com estas duas realidades. 
Maria aprendeu assim a abrigar o seu coração no caminho desenhado pela cabeça e sem qualquer protecção.
De coração amarrado, Maria julga-se imune a algemas e bastões pega no seu veículo e segue sozinha, sem qualquer protecção naquela estrada de corpo e alma.
Maria, era já uma jovem estudante universitária em fim de curso, aproveitando todos os minutos da vida, quando conhece Filipe um jovem profissional, que aproveitava todos os segundos dos minutos de todo o tempo que tinha livre na vida…
Sorriso contagiante, descontraído, confidente, bem composto, sempre amável e educado nas carteiras de uma escola onde há terras de grandes barrigas, onde as sopas chamam-se de açordas, as milhaduras são gorjetas, as encostas são chapadas e os açoites se dizem nalgadas, como reza a letra da canção magnificamente cantada pelo Antonio Pinto Bastos.
A profissão de Filipe foi a alcoviteira daquela relação. 
Já era um caminho conhecido de Maria, e os seus passos naquela estrada eram calculados ao milímetro, tamanha era a sua ideia de respeito e “justiça”.
As profissões cruzavam-se várias vezes na vida, e como assim era já reinava a descrença, a desconfiança que por vezes no coração de Maria, ainda estava muito fresca, muito recente. 
Por isso todas as palavras que lhe saiam da boca, saiam-lhe da razão, e nunca do coração.
Estavam unidos pela ideia da justiça, e a sua experiência recente, não tinha sido muito gratificante para o coração de Maria.
Com ela estava colada e assente a ideia de que nada mais que uma amizade dali podia surgir.
Maria já tinha aprendido que sexo é uma necessidade, e que amor era foda, e o respeito, a cumplicidade e a amizade, eram o melhor alicerce que o amor podia ter.
O amor era foda na medida em que nos torna dependentes, porque teima em passar o visto de condecoração ao coração, que fica com a mania de ser obediente a outrem que não o seu corpo e a sua cabeça.
Quando o coração ignora a razão, está tudo tramado.
O amor torna-nos reféns de nós próprios.
Aquele que é rei e que esta dentro de nós, aquele que dizem que nos dá vida, é tramado, quando quer mandar na nossa vida.
Porque no fundo, ele não existe, ou não tem grande valor sem o outro senhor verdadeiramente rei, que é o cérebro, mas ele tem a mania, e pronto. Marca o caminho.
Isto, Maria já tinha aprendido. Mas havia qualquer coisa. Havia mais qualquer coisa que Maria tinha de aprender. Havia outra caminho que Maria tinha de percorrer.
Inexplicavelmente as pernas de Maria mexiam-se, os pés ganhava vida, e o sentimento que reinava desenhava-se na ideia de que era preciso que, sem medos, seguisse em frente, sem destino. 
Aquela imagem, aquele reflexo.
Tinha que conhecer aquele caminho, seguir aquela estrada e deixar as marcas fazerem parte do seu caminho.
CLR

 

12
Mai19

Longo Caminho para Casa - Três


Longocaminhoparacasa

mulher-a-chuva.jpg

Parecia ter chegado o final do ano... Chuva, frio, nevoeiro…
À medida que se ia afastando na estrada, ia imaginando o sol, via-o timidamente a romper as nuvens, que também via estarem cheias de lágrimas. As suas lágrimas. A suas lágrimas a caírem do céu… Seguia caminho trepando a estrada. Como quem trepa uma montanha de ilusões. De sonhos… Remando com a ferocidade de quem precisa de sair dum remoinho… Nadando para se manter a flutuar… Pensando no que ficou para trás, no passado, no futuro e em como inesperadamente o céu por todo o lado se pôs negro. O clima tornou-se frio, e ela vai pensando nas coincidências da vida… Nas coincidências da natureza, e em como do céu em pleno mês de Agosto, caíram também lágrimas fortes, diria mesmo torrenciais, em alguns pontos dos pais…
O final de Agosto parece ter chegado mais cedo, chegara a Setembro sem esperar, ou seria ao Inverno, final do ano? Parecia Inverno, com chuva, lágrimas, e o céu não só mas também ele muito nublado…
Seguia a estrada e chegada à serra, apanhara nevoeiro… Olhava ao redor com espanto e não queria acreditar, nevoeiro em Agosto…. Mudanças, parece que chegamos ao final do ano... Mudanças no clima…
Ela, enfrentou-as como pode. Usou da força que não esperava ter e vestida com a capa que nunca teve de usar, foi enfrentando a tempestade no seu céu…
À luz do dia, e no meio do céu escuro, iluminada pela média luz fosca da estrela distante, uma luz de AMOR puro, forte e indomável, seguiu o seu caminho no meio de chuva que caiu do céu perdida, tal como ela se sentia… Perdida…
Chegada ao destino onde esperava se encontrar, no ar havia um estranho vento húmido que confundia o tempo, o modo e o lugar…
Sim foi ali. Tanto quanto é possível localizar, numa visão secreta da vida. Foi ali… Subiu ao seu quarto e naquele instante em que se viu confrontada frente a frente, com o passado recente e com a sua imagem no espelho, mas foi ali, ainda não desligada dela, que ela resolveu libertar-se em desabafo de choro…
Ali naquele momento, perante aquela imagem reflectida no espelho, ela ia tentar transferir para a outra parte de si, aquela sem memoria, ou de memoria apagada o seu passado recente… Aquela memoria branca que é por consequência incapaz da menor relação, passado, presente de si, com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contem… Ela… No espelho, desejava ver ela… E sonha que ela sem memoria, se esvai pelo presente, que simultaneamente deseja ver tanto passado como passado morto… Ela... Deseja soltar-se da existência anterior, e interior de mágoas … Porque sem referências do passado morrem os sentimentos, as ideias, os afectos e os laços sentimentais que a magoam… Razão pela qual ela se encontrava então perdida, e à procura do seu caminho para casa…
Aquele que tinha vindo a ser, um longo caminho para casa…
CLR

11
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dois


Longocaminhoparacasa

932f7c7666ca03fd37ece8ba3087f892.jpg

 

O barulho da água a correr na banheira despertou-lhe a consciência de que se devia levantar.
Empinou então o peso do corpo mole e cansado , erguendo-o da velha e ruidosa cama…
Fê-lo com dificuldade, devido aos bombos que teimavam em tocar na sua cabeça, Contudo, lá se conseguiu colocar na vertical.
Arrastou as pernas até à casa de banho, tentou lavar o que pode da alma e das lágrimas de mágoa.
Dor que se confundia, tanto no rosto, como nas restantes partes do corpo
- Maria, o pequeno-almoço está na mesa.
- Já vou.
Um galão e uma sandes de queijo da serra, foi o manjar que lhe tinham preparado.
Depois da casa arrumada e as malas no carro, restava-lhes uma pequena diligência que cumpriram antes de se meterem à estrada novamente.
O dia tinha acordado demasiado cinzento para que se pudesse pensar em sol, e estavam a cumprir-se as ameaças de chuva que se anunciavam…
O final de Agosto parecia ter chegado mais cedo, parecia Inverno. No pára-brisas, escorriam as lágrimas que caíam do céu. Lágrimas gemidas por nuvens em fúria, empurradas pelo sopro do malvado vento.
Vestida na protecção do seu carro, carregava no acelerador com a fúria que é precisa para rapidamente atravessar o temporal…
O limpa pára-brisas, empurrava para os cantos do vidro, a chuva, como quem empurra as lágrimas nas gotas de tristeza, para o lado da vida…
Não era só o céu que estava nublado…
CLR

11
Mai19

Longo Caminho para Casa


Longocaminhoparacasa

A SINA, O CAMINHO, OU SIMPLESMENTE UMA HISTÓRIA IGUAL A TANTAS.

UM CAMINHO IGUAL A TANTOS OUTROS CAMINHOS OU, UMA HISTÓRIA DE VIDA, SEMELHANTE A TANTAS OUTRAS VIDAS.

UMA HISTÓRIA VIVIDA OU NÃO.

APENAS FRUTO DE IMAGINAÇÃO.

UMA HISTÓRIA DE CORAÇÃO

57258194_2636357809708944_8239006261786443776_n.jp