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Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

13
Jun19

LONGO CAMINHO PARA CASA – QUARENTA E SEIS


Longocaminhoparacasa

46

E estava ali mais que provado a existência de algo tão especial e maravilhoso, não se podia pedir mais nenhum sinal...
O amor respondeu a Maria, quer do céu, quer dentro de si.
Maria, na sua caminhada encontrara vários refúgios.
Ora no desporto, quer através do running, ou no jogging, ou por e simplesmente numa manhã ou tarde bem passadas no ginásio, brincando de luvas calçadas.
Num, com objetivos bem traçados, como quem quer melhorar as suas marcas e fazer mais provas, como quem se coloca a si mesmo constantemente à prova saboreando ou roçando os limites do seu corpo. E em cada uma das provas, Maria tentava sempre um bocadinho mais… E mais.. E mais… Alcançava mais uns quilómetros do seu percurso até casa… O prazer de conseguir sempre mais um passo que fosse, era motivo para festejar vitória! Desde os dez quilómetros à maratona, Maria treinava com um método definido, cumprindo um plano de treino específico para atingir os resultados que estipulara inicialmente. Encontrar o seu caminho de casa… E isso fazia-a sentir-se muitíssimo feliz! Realizada, sorridente… De bem com a vida!
Depois, Maria passou ao jogging, a algo mais rotineiro e menos exigente. Consistia em correr num ritmo menos acelerado, sem pensar em tempos ou distâncias por questão de stress ou até de saúde. Era um dos escapes preferidos de Maria. Em cada passo, Maria melhorava e ajustava o corpo a um ritmo muito seu, muito subjectivo, e muito confortável. E era nesse ritmo que Maria afogava todos os seus problemas e onde pescava todas as soluções, repescando e saboreando a doçura de um sorriso novo e completamente recuperado! Recuperado em cada gota de suor libertado pelo seu corpo. Maria renovava-se assim… E sentia-se tão feliz…
No fundo, o único recorde que queria atingir era o de se sentir o mais leve possível… Não no peso do corpo, que já era suficientemente magro. Mas da sua mente…E isso passava muito por desfrutar da vista e de toda a envolvente. Por isso Maria adorava ir correr à praia, ou no meio do campo, onde o cheiro, as cores, a luz, resumidamente a paisagem eram os elementos fundamentais! Eram a sobremesa nesta sua deliciosa refeição!
No entanto, no seu novo estado de graça, e uma vez que as coisas tinham corrido mal da ultima vez, Maria estava impedida de praticar qualquer tipo de desporto. Tinha como carta de recomendação descanso absoluto, pelo que o estado dos seus nervos, o seu nível de stress andava acima do vermelho!
E depois de uma noticia daquelas… Como havia Maria de digerir tal ?
Maria lembrou-se de outro escape que entretanto arranjou. E talvez fosse por aí o outro caminho…
A escrita!
Maria trocou as lágrimas de suor vertidas nas corridas do jogging ou do running, pelas lágrimas de letras! E começou assim a esvaziar o coração, construindo e descobrindo caminhos e percursos através da escrita que vertia nos seus blogs.
Escrevia para se compreender, ou para perceber o mundo que a rodeava. Escrevia por rebeldia! Escrevia para praticar o humor nas feridas que sentia tocarem-lhe a vida a quem chamava corpo.
Maria escrevia, libertando alegrias e magoas, encontrando assim espaço no seu coração para sorrir cada vez mais!
Para libertar o sorriso que por vezes se prendia naquelas malfadadas magoas…
Por vezes sentia que escrevia para não enlouquecer, no meio de tanta loucura, que se transformava a sua vida!
Maria resolve então sentar-se à secretaria, ligar o computador, abrir a pagina do blog e começou a escrever:
 
Hoje acordei a pensar nas mudanças, em tudo o que perdi ultimamente e em tudo o que ganhei.... E não consigo desistir!
Aprendi! Que não posso desistir!
Na vida nem tudo o que nos cai é assim tão mau.... Nem tudo o que se perde é mau. Mas eu sinto que não te perdi. Que não te vou perder!
Deus tira, Deus arranja espaço .... Só temos de o ver. De o sentir. De o deixar entrar.... De lhe abrir a porta.
Aprendi a aceitar e a usar da melhor maneira, ou seja sempre com um sorriso. Mas a não desistir NUNCA! E a deixar sair o sorriso, ainda que seja molhado, porque descobri, que é ele que me dá força!
Mesmo quando ele teima em se esconder, mesmo quando os ténis já não resolvem tudo mesmo quando o suor, não me lava a alma, abrir os lábios e deixar entrar o sorriso, por vezes é a solução.
Resumo, nem tudo é mau! Nem tudo pode ser mau... Sinto-o... Não sei explicar, mas sinto que devo confiar, e ter fé! Não vou desistir de ti meu bebé. Não vou desistir! A mãe promete-te! Ela tem de estar errada! Não faz sentido! Alguma coisa não está bem! E a mãe vai descobrir o que é, prometo-te ! Não vou deixar que te matem, nem a ti, nem ao meu sonho, e à minha fé! Já te amo, desde o momento que soube que existias dentro de mim. Não vou desistir de ti, meu amor. Não vou!
CLR
 
26
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Cinco


Longocaminhoparacasa

45-COLLAGE

 
No céu, a noticia já era conhecida mas faltava partilhar a boa noticia pelas terras do seu vale encantado, no solo do seu retiro.
Retiro que remonta à época em que de Portugal nem o nome existia e o seu território, tal como hoje é constituído, fazia parte integrante da Península Ibérica.
Portugal não existia, mas este vale já existia, neste pequeno trato de terra surgido na Idade Média, o concelho de Tarouca.
Os Lusitanos, foram provavelmente os seus primeiros habitantes. Alguns historiadores consideram-nos já o resultado da fusão de Iberos e Celtas, cujas migrações se perdem nestas terras nas noites doutros tempos.
São testemunhas o castro de Mondim e de Castro Rei, onde nele foram encontrados vestígios dos Lusitanos, tais como casas, mós, objectos de cerâmica, machados de pedra polida.
Lamego foi um lugar onde os Romanos estabeleceram sólido domínio. Ora sendo tão perto de Tarouca e sendo suas terras tão férteis, é lógico que para aqui fossem atraídos, pois ainda hoje existem vestígios de estradas romanas.
Da permanência dos Árabes chegou até aos nossos dias a lenda do Penedo Encavalado, do Penedo da Meada e as que se referem à origem de povos, como Gouviães e Eira Queimada.
Em Tarouca Igreja Matriz de Tarouca, houve um castelo árabe que, em 1063, D. Fernando Magno, rei de Castela, veio submeter, depois de conquistar Lamego.
No onomástico do concelho há palavras árabes, como Almofala e Alcácima (Alcáçova), este ultimo é um morro onde existiu o castelo, na vila de Tarouca.
O Conde D. Henrique e seu filho Afonso I entregaram-no, com outras terras limítrofes, aos fidalgos, ricos homens e donos da sua côrte.
A Egas Moniz coube Salzedas (Algeriz) Gouviães; Tarouca, a Sancho Nunes; Dalvares, a Eldra Martins; e outras terras a Paio Cortez, D. Paio Viegas, Estevam Guilherme e Martins Passial.
Estes, com colonos do Minho, reconstruíram as povoações arrasadas em lutas de raça. Entretanto fundaram-se os dois mosteiros de S. João e Salzedas.
É provável que a fundação de Tarouca remonte ao último quartel do século XIII.
Mais tarde também se chamou Castro Rey. Com este nome recebeu foral de D. Afonso III a 11 de Dezembro de 1272. A antiga povoação de Tarouca foi quase sempre cabeça de concelho; mudado o seu nome, este não subsistiu por força da tradição. O primitivo concelho de Tarouca limitou-se quase só à freguesia da sede, com seus lugares; mas esta era muito extensa e contava muitas povoações.
Em 1898, o Concelho de Tarouca foi restaurado, tendo-lhe sido anexada a vila de Mondim com parte das suas antigas freguesias, ficando, até aos nossos dias composto de 10 freguesias:
Tarouca, Dalvares, Ucanha, Gouviães, Salzedas, Vila Chã da Beira, Granja Nova, Mondim da Beira, S. João de Tarouca e Varzea da Serra.
Sobreviveram a beleza das suas paisagens e numerosos vestígios do seu passado glorioso, tais como igrejas monumentais, seu valioso recheio em obras de arte, ruínas de ricos e importantes mosteiros, pontes medievais entre outros documentos históricos que atestam a sua importância através dos tempos desde antes da fundação da Nacionalidade.
Possuidora de todo este rico património, foi entregue na Assembleia da República uma proposta de subida à categoria de cidade. Posta a votação na Assembleia da República no dia 9 de Dezembro de 2004, foi aprovada pela maioria dos deputados passando assim à categoria de cidade. (Bibliografia: Monografia do Concelho de Tarouca do Ab. Vasco Moreira)
Tal vale encantado.
A verdade é que nem sempre é preciso atravessar oceanos para se deixar encantar.
Era a fuga preferida de Maria. Quando algo não estava bem, quando era preciso comemorar, era naquele vale que ela se ia refugiar.
Lá aproveitava o amanhecer, ainda sem demasiado calor para passear pelos caminhos perfumados com casas de pedra desenhadas em amplas janelas e varandas debruçadas sobre montanhas que crescem de vales silenciosos, imensa e deliciosamente vivos!
Onde tudo é vivo, tudo é calmo, tudo existe e é saboreado com complacência e parcimónia.
Os sabugueiros colhidos há pouco perfazem um rasgo de vermelho na correnteza das estradas.
O tempo soa nas horas do sinos das igrejas.
Algo alvoroça os cães da vizinhança. Um ténue nevoeiro impõe-se sobre o vale: parece um fumo parado que faz carecer de real os montes circundantes, numa mudez imóvel.
A Torre da Ucanha, a praia fluvial de Mondim da Beira, o Mosteiro Tarouca, o altivo mosteiro cisterciense de Salzedas, verdadeiras jóias do nosso património.
Respiram-se percursos que cambaleiam nas franjas dos tempos de uma vivência outrora, quais paredes sustentadas pela inércia e pelo conformismo de uma desilusão antiga.
Lembra-me um outro lugar, onde um ancião cego escondia recordações escritas nas fendas das paredes...
À saída do mosteiro e um pouco mais à frente, a judiaria, em ruínas mas de atmosfera recôndita, convida a um deambular que, apesar de curto, nos remete para uma época medieval, onde as construções se interligam através de invulgares passadiços desta aldeia vinhateira.
Sentem-se os passos da demora na escuridão da pedra, flutuando no espaço envelhecido, como que dores inúteis da decrepitude.
Luis e Maria, chegaram ainda antes do almoço. Podiam perfeitamente ter parado no caminho para comer numa qualquer estalagem à beira da estrada. Mas a ansiedade era tanta como a pressa de chegar.
Almoçaram e Maria lança a bomba como sobremesa.
Nos olhos do pai, Maria pôde ver um espelho de lagrimas de alegria.
- Então quer dizer que vou ser avô?
- A mãe deixou cair as palavras num silencio de um sorriso demasiado alegre para ser interrompido.
Aquele vale, nunca tinha sido sentido por Maria com tanto vento de alegria e felicidade.
Apreciaram um final de um dia estrondoso: uma leve sombra calma do anoitecer deu lugar a um céu negro profundo, longínquo e irrevogável.
À ceia, os reposteiros pesados e floridos convidaram à inércia e ao torpor, depois de um almoço em que se cozinhou e degustou o repasto regado a longas conversas até que a penumbra venceu o cansaço, e Maria se sem demoras, até sentir o amanhecer.
Domingo de manhã, sentada na beira da cama de soleira mas de casal, Maria ouvia o chilrear dos pássaros e o coro dos galos e gansos, que afincadamente entoa um cântico harmonioso.
Sessão interrompida pelo toque de telemóvel de Maria.
- Sim?
Sim sou. Mas como ? Probabilidade? Positivo?
Amanhã? Não não posso não estou em Lisboa, responde Maria.
Mas na ecografia estava tudo bem! O Dr Amadeu, disse que estava tudo muitíssimo bem!
Não, amanhã vou para Lisboa, mas vou trabalhar. Vou ao escritório deixar tudo preparado, e depois vou aí à clinica buscar o resultado, e depois logo marcamos.
Maria tentou levantar-se, mas as pernas não deixavam.
De repente, nada se mexia, apenas um ou outro insecto zumbia no remanso daquela paisagem que se transformou negra .
Molhada pelas lagrimas, arrasta-se até à porta e de cima das escadas vê o pai, a mãe, e Luis.
Desata num choro que não a deixa contar.
Maria, é acalmada pelo pai que lhe diz:
- Calma, isso não é assim. Não pode ser assim! Um não diz uma coisa e outro outra. Alguma coisa não está ai bem! Eu que nao percebo nada mas, calma….
- Maria retém o momento que lhe deu uma confiança inexplicável que alguma coisa não estava bem…
- O tempo escorre sem pressas, ante a partida irrevogável.
 
CLR
21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Um


Longocaminhoparacasa

                                          trpolice (1) 

 

Ela...
O caminho, o percurso, a estrada, havia de ser sempre escolhido, sentido, desenhado por si.
Maria adorava desenhar, pintar, correr, escrever, sentir a natureza a praia, o campo, o rio, as flores, os cheiros tudo lhe deixava marcas, tudo lhe trazia lembranças, tudo fazia parte de si.
Pintar, era outro dos seus passatempos preferidos. Outro escape a juntar às corridas, ao exercício, à escrita, a pintura.
Quando não havia mais gavetas para arrumar, Maria desenhava e pegava numa tela, nuns pincéis e algumas tintas e escrevia na tela o que lhe ia na mente.
Arrumava as gavetas, dava uso aos ténis, coloria telas, escrevia blogs, e preenchia as folhas vazias do seu diário com o mapa do caminho por si sentido e percorrido.
Maria pensava que mesmo que nalgum dia se perdesse, por ter atravessado tantos caminhos cruzados, nunca se iria arrepender do seu passado.
Olhava para trás e via várias linhas, umas mais marcantes do que outras mas nenhuma havia sido insignificante. Todas tiveram o seu propósito. Todas elas importantes!
Maria já havia gostado bastante de futebol. Quando andava no secundário, um dos seus passatempos preferidos chegou a ser ir com algumas colegas ver os treinos de um dos grandes clubes da Segunda Circular. Por e simplesmente o Clube do seu anjo.
E como era lindo ver aquele casal de velhotes, amorosos, a transbordar felicidade e amor de mão dada nas bancadas, devidamente trajados à altura a assistir a um dos seus programas preferidos! Um jogo do seu SCP!
Só a imagem já cheira a amor. Casal mais unido, mais puro de maior cumplicidade, de tudo o que se pode imaginar e querer!
Olhar e ver aquilo é sentir, “só eu sei, porque queria muito encontrar aquele caminho para mim”, pensava Maria, a ver os avós de mãos dadas, completamente apaixonados, a trocarem mimos, nos seus passeios por Lisboa.
Maria sorria, quando ouvia a avó a cantarolar, de entre outras canções, a do hino do Sporting. O Clube que lhe enchia o coração de pulos, e lhe fazia subir a tensão, deixando-a ao rubro a assistir a qualquer partida, quanto mais quando do alto dos seus mais de 90 anos, ia com o seu amor, amado, amante, namorado, marido, amigo, companheiro da e para vida, namorar para o estádio do seu clube, não havia coração que aguentasse.
Nem o de Maria que se vertia em lágrimas de alegria e emoção ao vê-los...
Eram o exemplo mais querido! Aquele caminho que Maria queria encontrar e seguir!
Já estavam as estrelas no céu, e com esse pano de fundo, Maria decidiu aceitar por algumas vezes ir aos estádios, na tentativa de atingir aquele clímax que se habituara a assistir.
Numa das vezes foi a convite do Gabriel, bancada VIP, que Maria aceitou não por ser o seu Clube mas por ser o Clube dos seus anjos. Talvez assim o seu sonho tivesse mais perto de se realizar, pensou Maria.
Uma aventura bastante engraçada. Digamos que, nunca viu tanto VIP a cantarolar tanto palavrão em tão pouco metro quadrado!
Maria delirou e sorriu! Gabriel como sempre o cavalheiro, apenas preocupado com a luz do telemóvel de Maria que não se apagava nem por nada!
É melhor atenderes, sugere Gabriel, com um sorriso malandro, deixando escapar o comentário “Eu também ficava em stress se soubesse que a minha namorada se estava a divertir tanto, e com um sorriso tão bonito como está, e....se ela não me atendesse o telemóvel!
- Vá não sejas mauzinho, responde Maria!
Estou assim com um sorriso tão bonito?
- Queres mesmo que te responda? Pergunta Gabriel.
Aquela aventura tivera a sua graça, como todas as que passavam juntos.
Acabou com um jantar na Avenida da Liberdade, e uma série de gargalhadas, quando deixou Maria perto do seu carro e do arrumador enfurecido, que lhe riscava o carro.
Maria era mulher de luvas, e não deu duas gargalhadas, saiu do carro sem se despedir e vai direita ao alvo, deixando Gabriel completamente boquiaberto e desprevenido.
Valeu-lhes Garry e a fuga do arrumador perante a genica de Maria, completamente descontrolada de fúria.
Garry! Lá estava ele de novo!

Noutro dia, Maria visitou a catedral, com o seu querido Manu, vindo do reino dos Algarves, com direito a cachecol e tudo! Esse sim, teve direito a sonhar. Viu as estrelas a brilhar no céu.
Festejos, porque o glorioso também ganhou, cada vez que Maria ia ao estádio, o seu clube tanto o do coração, como o de empréstimo, ganhavam sempre!
Naquele dia até ganharam uma corridinha de fuga entre tamanha confusão de claques, policias, e mal feitores como os de Maria, Manu e os amigos deste!
Não fosse Maria corredora, não estivesse habituada a correr, não se cruzara com aquele sonho, de aroma forte e doce, que a seguiu até ao beco.
Maria encetou a fuga e segundos depois, sentiu que era perseguida. O seu coração saltava de medo, e na sua mente só pensava nas nódoas que iria ter, ou na visita da esquadra desta vez sem toga. O que lhe pairou na mente deu-lhe mais força para correr ainda mais, mas as forças estavam a esgotar-se e a multidão, transformou-se em ainda mais confusão.
De repente sentiu um puxão no braço que a arrastou para uma esquina de um prédio.
Maria primeiro, cerrou os olhos, depois, sentiu um aroma familiar, e num sussurro apertado num abraço sentiu e ouviu um tem calma, fica aqui amor. Fica aqui.
Maria mal o conseguiu reconhecer, com aquele fato, mas aquele cheiro, aquele aperto, aquele abraço, aquele beijo na testa e aquela voz... Era António! Maria não conseguiu dizer uma palavra.
Antonio levantou-se e ordenou aos camaradas, que seguissem em frente.
- Vieste sozinha? Perguntou António
- Não, responde Maria, ainda a tremer.
- Então e o parvalhão do gajo que te trouxe está onde? Pergunta Antonio
- Maria levanta o olhar e vê Manu à sua procura do outro lado da estrada, e acena com a cabeça.
- António, dirige-se a Manu chama-o.
Manu identifica-se, e António irritadíssimo ordena-lhe:
- Bem, leva-a daqui em segurança se fazes favor, achas que és capaz?
Maria ficou ali, sentada no chão ainda por um bocado, a sentir o corpo a tremer, até que Manu lhe dá a mão e a ajuda a levantar.
Acompanha-a até ao metro e onde duas linhas se cruzam, cada um seguiu o seu caminho.
Onde duas linhas se cruzaram... Cada um segue o seu caminho.
Maria segue de carro, até casa, sentindo que o clímax dos estádios tinha acabado!
O amor já existia!
Só precisava de encontrar o caminho até casa.
Cruzasse as linhas que cruzasse, caminhos que encontrasse, estradas que percorresse, o seu caminho era o mesmo!
E o sinal era o de que, estava sempre a cruzar-se com o caminho, o caminho de casa!
CLR

18
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Nove


Longocaminhoparacasa

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      No céu , Maria podia ver mais uma estrela a brilhar…

      Sentia o céu cada vez mais como parte de si…

        É impressionante como nos sentimos à medida que vamos sentindo o tempo a passar por nós. À medida que vamos vivendo a vida, vamos sentindo toda a natureza, como algo que cada vez mais, vai fazendo também parte de nós…  

Cada vez mais a vamos conhecendo melhor, a vamos sentindo como nossa…

         Maria sentia isso ao olhar o céu… De dia podia sentir o calor do sol, admirá-lo e senti-lo com ela…

        Há noite, podia olhar as estrelas a brilharem no manto negro da noite, e sentir a sua companhia…

      Maria tinha perdido o bebé que tanto desejava, mas tinha-lo transformado numa das estrelas que todas as noites podia ver para si brilhando…

       Era uma mulher como tantas outras. Tinha a profissão que quis ter, não era de se queixar da vida, e estando ela já na casa dos trinta e alguns, sentia o desejo que qualquer mulher sente. O de poder sentir o amor de ser mãe…

      Tinha o coração grande, com algumas cicatrizes, mas nenhuma se comparava àquela com que tinha ficado… Podia até viver sem o amor de um amigo, de um homem, mas nunca de um filho…

        Sim, Maria já o sentia como tal… Como um filho, uma semente ou um rebento de todo o amor que tem dentro do si…  Reuniu nele todo o amor que tinha em si. Todas as forças, deu-lhe todo o seu sentimento,  tudo de si…

      Naquela altura, tudo parecia mais calmo, mais sereno… Toda aquela fase de tranquilidade explodiu em poucas semanas. Primeiro, com a noticia de gravidez de risco. Depois com a prenuncio do fim…

         Maria não era mulher de parar.. Nunca foi.

         E não se convenceu que tinha de parar… Agora sobejam-lhe as  ideias de culpa… Mesmo quando os entendidos lhe dizem, que fez tudo certo…  Que  a natureza é soberana. Há sempre algo dentro dela que numa rajada forte e seca de vento lhe diz, podias ter feito mais… O sentimento de culpa mitigado com impotência e raiva é o sangue que lhe corria nas veias…

        Num pulo de semanas se passou para a triste noticia… Mais uma vez perdera sangue, e desta vez, já não havia vida…

        A ideia de ter o seu amor dentro de si a morrer, matava-a. Mas depois a noticia que o seu amor tinha morrido dentro de si, já a tinha morto…

       O amor morreu, a sua dor espelhava-se no rosto e as lágrimas tinham-lhe  partido para o céu…

    O tempo passou, reencontrou as lágrimas. mas aquelas que lhe correm agora no rosto, são o  cumprimento à estrela, que do ventre lhe fugiu para o céu …

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Três


Longocaminhoparacasa

                                           33

Maria tinha voltado a sonhar como seu anjo mas naquela noite, sentia aquele apoio duplamente maternal ao rubro.
- Não tens de te preocupar, só tens de seguir o teu coração, e cuidar de ti meu doce, cuidar de ti! Percebes o que te quero dizer? Faz o que te propõem, mas tudo de olhos abertos. Decide com a cabeça minha querida.
Maria acorda sobressaltada, com o coração a saltar-lhe do peito.
Aconchega a cabeça na almofada e agarra-a com tanta força, que sente estalar cada osso que tem nas mãos. 
E num soluço de grito molhado, sente o aconchego do seu anjo na cabeça.
Aliviada Maria, sente que tomou a energia necessária para seguir em frente e enfrentar o que fosse preciso.
De repente toca o telemóvel, Maria.
- Estou amor, é só para te mandar mais um beijo, e já agora saber onde nos encontramos, pergunta-lhe Luis
- Não sei., responde-lhe Maria
- Já estou a caminho, apanho-te em tua casa, estou a conduzir tenho de desligar, beijo, até já, responde-lhe Luis apressadamente não porque estava a conduzir, mas porque temia que Maria mudasse de ideias. 
Após bastante insistência, Maria tinha aceite que Luis a acompanhasse na consulta que tinha marcada com a médica.
Maria sentia o peso do apoio no braço que tinha pelos ombros. 
No percurso até ao carro, de vez em quando, Luis, puxava Maria até si, e dava-lhe um beijo na cabeça, segredando, vai correr tudo bem vais ver. Não vai acontecer nada, vai correr tudo bem!
Entraram no carro e o silêncio permanecia. Só era interrompido pelo olhar que Luis lhe deitava aquando de cada paragem que teve de efectuar aos sinais vermelhos. 
-Estás bem?, perguntava-lhe Luis, seguido de mais um abraço e um beijo.
Hein?
- Sim. disse Maria em voz sumida, esboçando um sorriso numa tristeza e medo muito mal disfarçadas.
- Tem calma, ela é uma excelente médica e foi Directora de Serviço do IPO, pelo que é muito competente, não achas? Não confias nela? pergunta-lhe Luis, numa tentativa de desbloqueio do silêncio de Maria.
Fala comigo amor ! Maria, estás bem? insiste Luis, enquanto estaciona o carro.
- Sim, responde Maria. 
Quero pedir-te uma coisa, solicita-lhe Maria
Se não te importas, eu subo sozinha, porque estou a precisar de dormir, e ficar sozinha comigo e com o meu pensamento.
- Não, Maria. Eu prometo que não te digo mais nada. Faço-te o jantar, levo-te o Rex à rua e fico no meu cantinho. Jantas sozinha no quarto se quiseres, e se quiseres até posso dormir na cama do Rex. Agora não me peças para te deixar sozinha hoje, por favor.
Eu escondo-me na dispensa, ok? Responde-lhe Luis em tom demasiado agudo e convicto.

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Dois


Longocaminhoparacasa

                                         32

Um dia quando olhares para trás verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste!
Não podia estar!
Aquilo não era normal, estava tudo menos bem.
Mal aqueceu a cadeira, resolve pegar nas pastas dos processos denominados por si “112”, e saiu porta fora.
Abriu a porta de casa, e foi em direcção ao espelho da casa de banho onde tentou reconhecer aquele rosto, mas sem sucesso pensou, tenho de resolver isto.
Sentou-se na secretaria e ligou o computador.
A piscar a janela do Messenger, 
- Bom dia, beijo
Tem um bom dia, como estás sentes-te melhor?
- Olá bom dia, então como estás?
- Eu estou bem, e tu estás melhor? - pergunta Luis em modo preocupado e afectuoso.
- Estou hoje até fiz gazeta!, responde Maria a tentar amenizar a coisa.
- A sério, jura? A sério? Só falta dizeres que até já foste fazer a tua corridinha diária matinal!
- Não isso não fiz.
- Quando vais ao médico? Quando vais fazer os exames? - pergunta Luis angustiado.

CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Um


Longocaminhoparacasa

             31

Maria reconheceu-a de imediato…
No sonho também era noite, a lua estava linda e estava a chover…
Ela esboçava um sorriso lindo, e com a mão, aconchegava a cabeça de Maria, num gesto puro e doce de empatia e compreensão.
Ela foi muito feliz!
Viveu uma vida longa de idade e bastante de sorrisos. Mas curta, porque fazia tanta falta a Maria. 
Com ela Maria teve experiências únicas e maravilhosas, que nos momentos de nostalgia regressam para lhe preencher e inundar o coração de lagrimas molhadas. 
E as memórias, eram tantas e tão boas, que ela não as queria deixar ir. Não queria nem quer! Mas, a vida dela hoje não é aqui! , pensa Maria...
Maria foi literalmente apedrejada por palavras que jamais pensou um dia ouvir. Palavras que lhe feriram não os sentimentos, mas o coração!
Ela morreu, por dentro e por fora, pelo que ouviu do seu anjo.

" Minha querida, minha menina, meu amor, 
Há dias em que pomos vírgulas, colocamos reticências em que pomos pontos finais, e há dias em que temos necessidade de virar a página, tens de cuidar de ti, não te descuides coração!
Não tenho o meu colo preparado minha querida. 
Um dia quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste!"

A luz do coração de maria por momentos apagou-se. 
No sonho Maria podia ver o seu próprio coração, e tinha naquele preciso momento a cor da noite, a cor das cinzas, de algo que tinha acabado de se queimar. Maria chorava não só em sonho, chorava, chorava por fora e por dentro do seu coração.
Maria acorda.
Acordou do sonho e da vida ou para a vida.
Levantou-se e depressa sentiu a água a lavar-lhe não os braços, o rosto, ou os pés mas a alma.
Pega na chave do carro, e seguiu.
Desceu as escadas do metro com facilidade que já não as conseguiu subir.
Chegada ao cimo das escadas pensou se teria fôlego suficiente para seguir a Avenida até ao escritório, mas lá conseguiu.
- Bom dia doutorinha, está tudo bem? Pergunta a Carmen
- Bom dia Carmen, sim está tudo bem, responde a Maria
- De certeza doutorinha, não parece?
- Sim está tudo, obrigada

CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Oito


Longocaminhoparacasa

                 28

 

Maria, tinha um anjo… Mas de momento ela nem se atrevia a pensar nele… Sabia que se cruzasse com ele, iria ver no seu rosto, a base da cor da bendita chávena de chá.
- Do nosso chá… pensava alto Maria…
O chá que simbolizava o sermão.. Mas desta vez, estaria desenhado a vapor a palavra culpada…
Pintado com a cor de quem reconhece que fez mal, e está a consumir o castigo que merece…
Sabia que quando se cruzasse com o seu anjo, ela não lhe iria apontar o dedo, como todos os outros. Mas também não precisava…
Bastava aquele sorriso de carinho e protecção acompanhado com o olhar que lhe diz por palavras mudas:
- Tu sabias meu amor, eu avisei-te! Tu sabias… Anda cá…. Senta aqui ao meu colo… Minha menina dos canudinhos…. Deixa lá…. Vives-te! Dói, doeu… Mas vives-te sentiste… Sorriste, amas-te e agora…. Agora sabes o que tens de fazer….Anda cá minha menina… Errar é humano… anda cá minha princesinha…
Então, com medo, que o seu incêndio fosse apagado, esvaindo-se o calor numa imensa pedra de gelo, Maria preferia nem pensar no seu anjo. Não a queria encontrar presente numa luz das curvas do seu pensamento… Da sua consciência pesada…
Doía-lhe sentir o peso da culpa… Remoía-lhe a consciência do que sabia ser o bem, e o mal… Mas o pior peso que Maria sentia, era quando “sentia” o seu anjo… O rasgo que sentia no coração era de tal forma forte, que fazia uma ferida…
Quando bebia da cumplicidade do sentimento que a avó iria fruir, quando fossem ambas confrontadas das suas acções…. Da sua atitude.. A dor que Maria sentia, era tremenda… Sentia o que a sua avó, agora anjo, pensava da mesma forma. Pensava como a outra parte de si, também pensava.. Também sentia… Pensava como se fosse ela… Era como se ela fosse a outra parte de si.. Aquela que também sabia que a sua acção, era censurável, mas perdoável… Porque nestas coisas da razão e do coração, nunca há amor sem perdão…Nem nunca há mal que não tenha solução…
Sabia que quando encontrasse o seu anjo, se iria sentir pressionada a tomar uma decisão… A decisão que mais lhe doía tomar… Sabia que ela a perdoava como sempre o fez. Mas também sabia que a iria obrigar a escolher o caminho certo. A seguir o caminho considerado certo, obrigando-a a ouvir a razão!
A avó da Maria, agora seu anjo, sempre tentou vestir o coração com a razão… Mas no fundo, no fundo, Maria sabia que ela a percebia, e que afinal, quando chegavam as duas à tal meta das confissões, o peso do coração era elevado ao da razão…
Maria sabia que ela sempre quis parecer mais racional, do que no fundo era.. Agora percebia que seria porque lhe queria mostrar o valor da razão. A sua dimensão, o valor que a consciência tem…, Queria transmitir-lhe isso para que depois a sua princesa pudesse optar conscientemente. Consciente e armada contra todas as frentes que iria enfrentar para ganhar a sua luta… Para poder decidir com a força da guerreira que ela sempre quis criar…
Mas, Maria sabia tudo isso.. E compreendi-a de uma forma inexplicável…Então, Vivia, sorria.. Vivia a ilusão daquilo que no fundo parte dela lhe dizia ser um engano, enquanto a outra parte a fazia sonhar alto…
No entanto, sabia ser inevitável ajustar contas com o seu anjo…
Agarrou-se à almofada e pediu para que o seu anjo lhe guardasse o sono.
De modo silencioso lhe alisasse, os canudos do cabelo, e por motivo nenhum lhe tocasse na ferida… Largou a almofada molhada com a lágrima que deixou fugir, e murmurou baixinho.
- Desculpa. Desculpa a tua menina, mas o amor, tem destas coisas.. Eu sei… Eu sei.. Eu sei.. Mas eu amo-o tanto.. É um amor especial….. Eu sei que tu também sabes isso.. Também sentes isso…
Perdoa-me e ajuda-me que amanhã vou pecar outra vez… Vou deixar a carne às ordens do coração, e vou alimentar o meu amor, com o corpo que amo, mas, mas tenho consciência, não ser meu…
Deixa-me sonhar meu anjo… Guarda-me o meu sono e orienta o meu coração pelo meu caminho de casa….

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Sete


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                 27

Mais um quilómetros aos ténis, e depois de devidamente trajada, resolve seguir o seu caminho.
Maria entrou no carro, ligou a chave, puxou o cinto, ligou as luzes e seguiu a estrada…
Seguiu a medo, com o coração cheio de amor, de loucura de esperança…
Libertando o sorriso receoso, Maria tinha fé no seu destino, no seu caminho…
Seguia pensando na decisão que tomara, olhando para a estrada, via o seu caminho.
O caminho mais longo que fez até casa… Ouvia o som do rádio que à medida que avançava, se tornava mudo e as luzes cegantes…
O céu estava escuro, a temperatura gelada e no seu rosto caíam as gotas de chuva que há horas estavam a ser bloqueadas… As gotas que com mais ou menos êxito tinham conseguido ser disfarçadas, ao mesmo tempo que eram contraídas cada vez mais as rugas que na testa lhe despiam o sentimento de melancolia, de fragilidade…
De repente, viu as nuvens dissiparem-se uma a uma. O sol, começava a brilhar radioso, tentando aquecer a sua alma, derretendo a sua dor.
A decisão estava tomada. Havia que seguir em frente, e beber da novidade.
Esperar, era a ordem! O tempo era a bússola que lhe iria indicar o caminho…
Estacionou, em frente à porta.
Resolver primeiro levar o seu companheiro a passear, aproveitando para esticar as pernas, enquanto ele fazia as necessidades…
Subiu carregada das malas e das recordações que não conseguiu esquecer quando entrou em casa…
Ainda com o copo de água na mão, com que matou a sede, Maria resolveu ligar o computador, para espreitar se ele estava online, mesmo antes de lhe responder à sms que onde lhe informaria que tinha chegado bem. Que tinham feito boa viagem… Ela e o seu mais fiel companheiro… 
Estava online.. De sorriso aberto, resolveu ficar a olhar para a janela do Messenger, e começou a escrever:
- Já cheguei amor, fizemos boa viagem. Viagem muito cansativa, mas já chegamos!
- Ainda bem amor, beijo para ti! Amo-te Muito e estou cheio de Saudades! Um abraço e um beijo muito apertado para ti e uma festinha ao REX! Até amanhã amor, não vejo a hora de te abraçar!
- Também eu, beijo, com AM.
CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Seis


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26

Saltou da cama ainda não eram sete da manhã.
Veste o top, os calções e os ténis, e lá vai ela, para o seu treino matinal.
Maria, olha pelo retrovisor e avista o caminho que deixou para trás num sorriso de uma grande amizade. Uma amizade muito especial.
Dirigiu novamente o seu olhar para a frente, e deixou-se enfeitiçar pela cor do carro preto que seguia à sua frente… Cor, Marca, Modelo igual ao de Michael…
As estrelas ainda não se tinham recuperado do que viam, já presenciavam a comparência de novo ser…
Um ser que lhe ocupara amigavelmente o coração e a vida ha quase uma mão cheia de anos…
Levou a mão ao rosto, esticou os dedos que lhe limparam as gotas do mar, que sentia escorrer dos olhos…
As nuvens estavam curvas aos seus olhos, desenhando um ponto de interrogação…
No canto escorria uma lágrima do texto já escrito, por quem sabe o que se vai passar…
Deixar uma vida para nada… Lutar por nada… Apostar na solidão…
Sim era assim que ela no fundo imaginava ter sido o resultado da sua ultima opção.
Na rua, numa poça de água, espelha-se uma imagem num misto de medo, alegria e tristeza…
Maria, sabia… Pressentia, que nem tudo lhe tinha sido contado. Ela sabia…
Estaciona o carro junto à falésia.
Resolveu sair do carro, só para melhor sentir a brisa..
No chão, vê uma rosa, a mesma que tinha trazido consigo, há mais de um mês atrás…
Aquela de que tinha esperança…
Curva o esqueleto e segura-a com firmeza. No dedo fica travado um espinho. Ela leva o dedo junto dos lábios, toca no espinho e dá-lhe um beijo, sussurrando amo-te…
- Amo-te… Meu amor, Amo-te!
Foram mais de 10 quilómetros que limparam todas as mágoas, libertaram o sorriso e soltaram palavras ainda que solitariamente ouvidas.
CLR

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Três (2ª parte)


Longocaminhoparacasa

         23 2

 

LONGO CAMINHO PARA CASA – VINTE E TRÊS (continuação)

Bem, na verdade, este sentimento é confirmado por todos aqueles que lá entraram, e que conheceram um pouquinho do seu coração, que conviveram com o seu sorriso. Esses raramente querem sair…
Maria, estava agora em frente a mais uma mazela, mais uma ferida. Mais uma mágoa, mais uma cicatriz. E desta vez sentia-se verdadeiramente derreada, enganada, e vencida pela mentira.
Mais uma vez a mentira, a confiança havia sido quebrada, e o coração estava despedaçado. 
Mas, agora havia que seguir em frente… Limpar as lágrimas e primeiro resolver as coisas. Depois, o que tiver que se arranjar, os pedaços do coração que tiverem de ser concertados ou curados, o que tiver que ser feito, Maria fará. Seria desta vez que Maria fechava o coração para o reino deste mal?
Maria, resolveu escrever. Os desabafos passados a letras amorteciam-lhe a dor, passando a ser um óptimo medicamento.
Um blog, de uma ninfa, cheio de chocolate, desabafos e amor.
Naquele dia Maria escrever:
Hoje
Hoje desejo recordar 
quem por mim passou.
Hoje apetece-me desejar 
os abraços e os beijos,
as palavras e os olhares,
o amor desenfreado
o desejo a latejar
os sorrisos e os toques
os momentos de mãos dadas a conversar
os corpos
na loucura do desejo 
e os jogos proibidos
as promessas de prazer que ficaram por cumprir
as mensagens loucas a meio da noite 
e aquelas que nunca chegaram...
Hoje apetece-me recordar 
sentimentos e momentos
os sorrisos e as lágrimas, 
misturados algumas vezes
com a conquista do amor e do prazer...
Hoje QUERO recordar 
quem me fez sentir desejada e amada
quem me secou as lágrimas da alma
quem me fez abrir o coração
quem me soube ler e sentir
quem me fez sorrir.
Hoje RECORDO o quanto amei 
penso em quem desejei
e um dia chegou à minha vida 
e nunca dela quis sair...
HOJE

CLR

 

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte


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20

A noite estava estrelada. 
Do manto azul brilhavam sinais de uma ninfa docemente envolta em chocolate, ora doce, branco, ora amargo, saboreado ao som de um Primeiro beijo, Paixão, ou o Prometido é devido, com um cavaleiro andante que mais tarde soou a não queiras saber de mim, e nunca me esqueci de ti.
Tudo por causa das pontes. 
Do seu significado já luzia a convicção que nada se poderia construir, porque nada havia para construir se não mais uma amizade. 
Maria tinha fechado o coração ao mundo.
Tinha criado um muro, onde protegia um mundo só seu, onde só deixava entrar quem fosse insistente e lhe provasse ser digno e merecedor da sua confiança. Por isso nada mais ofertava se não uma amizade, e alguns sorrisos.
De peito aberto, seguiu como quem pega numa folha em branco e confiantemente, começa a rabiscar o desenho que imaginou.
Desenhou e pintaram mais, mas começaram por desenhar aquela amizade.
Fizeram-no e fizeram muitíssimo bem, de tal modo que construíram uns alicerces que permitiam a construção de um aranha céus.
Uma afeição, uma estima, uma simpatia, apreço, um apego, uma cordialidade linda, que construiu uma amizade maravilhosa e robusta que perdurou e perdura ao longo do tempo. 
Ambos ganharam, lucraram daquela uma amizade maravilhosa que ofertaram naturalmente um ao outro, como se oferecem flores, a quem gostamos e recebemos com sorriso, de quem gosta de nós…
Com ela, ou com eles, o comboio seguiu…
O nascer do sol era cada vez mais lindo, aos olhos da Maria brilhavam cada vez mais, e tudo parecia crer que aquele havia de ser um dia especialmente deslumbrante e inesquecível para ambos…
Sem a mínima expectativa, sem nada esperar, sem nada sonhar…
Estavam a conceber um novo amor, uma paixão, construída sobre uns alicerces de uma amizade inabalavelmente inquestionável.

CLR

15
Mai19

Longo Caminho para casa - Dezanove


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19

 

Aquela imagem, aquele reflexo...
De estetoscópio a bisturi, inexplicavelmente trocado pela dourada espada numa fase inicial, e posteriormente pelo escudo, capacete, bastão e algemas. 
Primeiro os códigos e depois a toga, cruzaram-se com estas duas realidades. 
Maria aprendeu assim a abrigar o seu coração no caminho desenhado pela cabeça e sem qualquer protecção.
De coração amarrado, Maria julga-se imune a algemas e bastões pega no seu veículo e segue sozinha, sem qualquer protecção naquela estrada de corpo e alma.
Maria, era já uma jovem estudante universitária em fim de curso, aproveitando todos os minutos da vida, quando conhece Filipe um jovem profissional, que aproveitava todos os segundos dos minutos de todo o tempo que tinha livre na vida…
Sorriso contagiante, descontraído, confidente, bem composto, sempre amável e educado nas carteiras de uma escola onde há terras de grandes barrigas, onde as sopas chamam-se de açordas, as milhaduras são gorjetas, as encostas são chapadas e os açoites se dizem nalgadas, como reza a letra da canção magnificamente cantada pelo Antonio Pinto Bastos.
A profissão de Filipe foi a alcoviteira daquela relação. 
Já era um caminho conhecido de Maria, e os seus passos naquela estrada eram calculados ao milímetro, tamanha era a sua ideia de respeito e “justiça”.
As profissões cruzavam-se várias vezes na vida, e como assim era já reinava a descrença, a desconfiança que por vezes no coração de Maria, ainda estava muito fresca, muito recente. 
Por isso todas as palavras que lhe saiam da boca, saiam-lhe da razão, e nunca do coração.
Estavam unidos pela ideia da justiça, e a sua experiência recente, não tinha sido muito gratificante para o coração de Maria.
Com ela estava colada e assente a ideia de que nada mais que uma amizade dali podia surgir.
Maria já tinha aprendido que sexo é uma necessidade, e que amor era foda, e o respeito, a cumplicidade e a amizade, eram o melhor alicerce que o amor podia ter.
O amor era foda na medida em que nos torna dependentes, porque teima em passar o visto de condecoração ao coração, que fica com a mania de ser obediente a outrem que não o seu corpo e a sua cabeça.
Quando o coração ignora a razão, está tudo tramado.
O amor torna-nos reféns de nós próprios.
Aquele que é rei e que esta dentro de nós, aquele que dizem que nos dá vida, é tramado, quando quer mandar na nossa vida.
Porque no fundo, ele não existe, ou não tem grande valor sem o outro senhor verdadeiramente rei, que é o cérebro, mas ele tem a mania, e pronto. Marca o caminho.
Isto, Maria já tinha aprendido. Mas havia qualquer coisa. Havia mais qualquer coisa que Maria tinha de aprender. Havia outra caminho que Maria tinha de percorrer.
Inexplicavelmente as pernas de Maria mexiam-se, os pés ganhava vida, e o sentimento que reinava desenhava-se na ideia de que era preciso que, sem medos, seguisse em frente, sem destino. 
Aquela imagem, aquele reflexo.
Tinha que conhecer aquele caminho, seguir aquela estrada e deixar as marcas fazerem parte do seu caminho.
CLR

 

12
Mai19

Longo Caminho para Casa - Três


Longocaminhoparacasa

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Parecia ter chegado o final do ano... Chuva, frio, nevoeiro…
À medida que se ia afastando na estrada, ia imaginando o sol, via-o timidamente a romper as nuvens, que também via estarem cheias de lágrimas. As suas lágrimas. A suas lágrimas a caírem do céu… Seguia caminho trepando a estrada. Como quem trepa uma montanha de ilusões. De sonhos… Remando com a ferocidade de quem precisa de sair dum remoinho… Nadando para se manter a flutuar… Pensando no que ficou para trás, no passado, no futuro e em como inesperadamente o céu por todo o lado se pôs negro. O clima tornou-se frio, e ela vai pensando nas coincidências da vida… Nas coincidências da natureza, e em como do céu em pleno mês de Agosto, caíram também lágrimas fortes, diria mesmo torrenciais, em alguns pontos dos pais…
O final de Agosto parece ter chegado mais cedo, chegara a Setembro sem esperar, ou seria ao Inverno, final do ano? Parecia Inverno, com chuva, lágrimas, e o céu não só mas também ele muito nublado…
Seguia a estrada e chegada à serra, apanhara nevoeiro… Olhava ao redor com espanto e não queria acreditar, nevoeiro em Agosto…. Mudanças, parece que chegamos ao final do ano... Mudanças no clima…
Ela, enfrentou-as como pode. Usou da força que não esperava ter e vestida com a capa que nunca teve de usar, foi enfrentando a tempestade no seu céu…
À luz do dia, e no meio do céu escuro, iluminada pela média luz fosca da estrela distante, uma luz de AMOR puro, forte e indomável, seguiu o seu caminho no meio de chuva que caiu do céu perdida, tal como ela se sentia… Perdida…
Chegada ao destino onde esperava se encontrar, no ar havia um estranho vento húmido que confundia o tempo, o modo e o lugar…
Sim foi ali. Tanto quanto é possível localizar, numa visão secreta da vida. Foi ali… Subiu ao seu quarto e naquele instante em que se viu confrontada frente a frente, com o passado recente e com a sua imagem no espelho, mas foi ali, ainda não desligada dela, que ela resolveu libertar-se em desabafo de choro…
Ali naquele momento, perante aquela imagem reflectida no espelho, ela ia tentar transferir para a outra parte de si, aquela sem memoria, ou de memoria apagada o seu passado recente… Aquela memoria branca que é por consequência incapaz da menor relação, passado, presente de si, com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contem… Ela… No espelho, desejava ver ela… E sonha que ela sem memoria, se esvai pelo presente, que simultaneamente deseja ver tanto passado como passado morto… Ela... Deseja soltar-se da existência anterior, e interior de mágoas … Porque sem referências do passado morrem os sentimentos, as ideias, os afectos e os laços sentimentais que a magoam… Razão pela qual ela se encontrava então perdida, e à procura do seu caminho para casa…
Aquele que tinha vindo a ser, um longo caminho para casa…
CLR

11
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dois


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O barulho da água a correr na banheira despertou-lhe a consciência de que se devia levantar.
Empinou então o peso do corpo mole e cansado , erguendo-o da velha e ruidosa cama…
Fê-lo com dificuldade, devido aos bombos que teimavam em tocar na sua cabeça, Contudo, lá se conseguiu colocar na vertical.
Arrastou as pernas até à casa de banho, tentou lavar o que pode da alma e das lágrimas de mágoa.
Dor que se confundia, tanto no rosto, como nas restantes partes do corpo
- Maria, o pequeno-almoço está na mesa.
- Já vou.
Um galão e uma sandes de queijo da serra, foi o manjar que lhe tinham preparado.
Depois da casa arrumada e as malas no carro, restava-lhes uma pequena diligência que cumpriram antes de se meterem à estrada novamente.
O dia tinha acordado demasiado cinzento para que se pudesse pensar em sol, e estavam a cumprir-se as ameaças de chuva que se anunciavam…
O final de Agosto parecia ter chegado mais cedo, parecia Inverno. No pára-brisas, escorriam as lágrimas que caíam do céu. Lágrimas gemidas por nuvens em fúria, empurradas pelo sopro do malvado vento.
Vestida na protecção do seu carro, carregava no acelerador com a fúria que é precisa para rapidamente atravessar o temporal…
O limpa pára-brisas, empurrava para os cantos do vidro, a chuva, como quem empurra as lágrimas nas gotas de tristeza, para o lado da vida…
Não era só o céu que estava nublado…
CLR

11
Mai19

Longo Caminho para Casa


Longocaminhoparacasa

A SINA, O CAMINHO, OU SIMPLESMENTE UMA HISTÓRIA IGUAL A TANTAS.

UM CAMINHO IGUAL A TANTOS OUTROS CAMINHOS OU, UMA HISTÓRIA DE VIDA, SEMELHANTE A TANTAS OUTRAS VIDAS.

UMA HISTÓRIA VIVIDA OU NÃO.

APENAS FRUTO DE IMAGINAÇÃO.

UMA HISTÓRIA DE CORAÇÃO

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