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A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.


14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezassete

por Longocaminhoparacasa

01017-COLLAGE

Uma vida.
Dois percursos percorridos, dois caminhos falhados.
Duas mentiras necessariamente vividas.
A primeira a perfeita. Mas ambos a haviam deixado esmorecer-se, por conta de descuido, de imaturidade, ou mesmo de amor. Talvez, fosse isso.
Vivida a paixão, não sobreviveram ao amor, que deixaram morrer precocemente.
Ainda hoje Maria pensa na resposta. 
- Se será essa a verdade. Ou qual será a verdade?
Porque morreu? Por falta de amor, por falta de maturidade, ou por ter acabado a paixão?
Porque não lutavam os dois? Porque não lutava ele por ela? Acabou a paixão? Encontrou um novo amor? Ela não era boa o suficiente para si?
Estariam destinados apenas à amizade eterna?
Maria pensava que não era suficiente, e que as diferenças sociais que tinham e que aparentemente não tinham importancia, afinal, estavam a revelar-se fundamentais para os afastar.
Não lutaram, porque nem sequer fizeram planos. 
Viviam o dia a dia, e nunca repararam, nas flores que rodeavam a pureza do seu amor, nas gotas de chuva, nos flocos de neve, no cheiro dos malmequeres, no jardim florido que acompanhava o lar daquele amor genuino…
Talvez fosse por isso, que não repararam que as flores tinham sede, as àrvores tinham os ramos secos, e as ervas daninhas já eram mais que muitas.
Maria sentia que era melhor na amizade do que no amor. Na verdade, acho que nunca acreditou no amor genuine e puro. Naquele amor verdadeiro, sem interesses, sem carne, tolerante, cumplice, sentido!
Com Maria, talvez por fruto da idade, era tudo paixão, fogo, e quando as brasas se iam apagando, reinava a insegurança, e depressa desistia, e aceitava a amizade como punição. 
No amor, Maria, não era guerreira. A vida havia de lhe ensinar a se-lo noutras coisas que lhe pintaram a vida miseravelmente, mas no amor não.
Mais uma vez, voltou ao mesmo destino.
Maria sentia que nada era reciproco. Que a sintonia da paixão se tinha esvaido nas ondas e perdido no mar.
As suas lutas eram solitarias. E de nada valia procurar. Porque o que acabava por encontrar acabava sempre em nada.
E o caminho para chegar ao nada, era tão doloroso que não valia a pena a docura de algumas curvas.
Resistiu enquando pôde, mas sempre ciente de que o objectivo era atingir o NADA. Não havia cumplicidade, e a sua insegurança e o medo de falhar, não lhe permitia lutar para que o amor se instalasse confortavelmente no seu coracão.
De tal maneira que, quando deu por isso, já a neve pintava a Estrada da segunda viagem.
Mas, a segunda viagem não se revelou de todo melhor que a primeira. Diferente, mais madura, mas tal como Maria, replete de paixão, e ilusão, e claro está extremamente insegura e frágil.
Chegara ao dia em que havia de dar um rumo à segunda viagem.
Combinaram um encontro e lá foi Maria, a conduzir ate à estação onde decidiria o rumo daquele itinerário.
A neve luzia de tal forma que era nela que Maria via as luzes do caminho em que passavam as rodas conduzidas por si, até à estação ferroviária.
Chegada ao sitio, cujo nome, seria de um objecto recto em que estão bem demarcadas as medidas que ajuda a medir, objecto cujo nome partilha com aquela belissima terra.
Vigiada pelo magnifico Douro, a quem Maria segredava e desabafava os seus medos. 
Olhava as águas do rio e pensava nas suas magoas e, em como havia de lutar entre o desejo que o coração transbordava e o medo que a razão teimava em lhe adocicar a consciência do temivel fracasso que aquela viagem se adivinhava. 
Finalmente chega e encontra algumas máquinas de tracção a vapor abandonadas num terminal de linha completamente desactivado, facto que a fez pensar no preludio do lugar, no Douro, e na viagem fracassada no tempo que pressentia daquele reencontro decisivo.
Estaciona junto à estação, e lá estava a estalagem.
Simples, mas decorada do amor que se teimava em despedir deles.
Suaram, desobstruindo o desejo, a avidez lascívia de dois corpos sedentos e replectos de paixão e saudade, sem dizer uma única palavra.
Em silêncio libertaram todo o suor das lágrimas e de desejo naquela misera e oculta despedida.
Com a cabeça na almofada meticolosamente amarrada de esguelha entre os seus braços, Maria quebrou deleitada, suplicando ao silencio que permanecesse no quarto.
No grito de um toque suave, António, desvia-lhe a madeixa de cabelo despenteado que prepositadamente lhe omitia o rosto escondendo-lhe o olhar. 
Abre assim caminho para que os seus olhos e os da Maria falassem aquilo que ambos os corações temiam.
Maria já havia pressentido a existência de uma noticia que não só lhes mudaria o rumo, do nada que já tinham, mas lhes indicava o caminho do inicio de uma viagem solidária a dois.
E assim, foi. A paixão que tinham não era suficiente para ela aceitar tal noticia. Para ela era o fim!
Depois da confissão, o olhar molhado confessou o desfecho daquela relação, e ditou mais uma vez o inicio de uma amizade frustrada por amor.
No percuso até casa, o branquinho escorregava na neve, como as lágrimas gelidas que lhe escorriam no rosto.
Maria sentia um misto de raiva, de dor, de inveja. 
Sentia-se um verdadeiro trapo, rasgado, velho, inútil, e desnecessário. E culpava o seu coracão, por se deixar iludir tão facilmente, pensando que podiam construir algo melhor! Sentia-se um verdadeiro animal irracional, um asno!
Perguntava-se, como poderia ele achar que ela aceitaria tal situação? Veria ele assim nela uma mulher tão burra, tão fraca, tão carente? 
Poderia ter sido só carne o que viveram? 
Apenas sexo, e demasiado tempo livre?
Tantas perguntas Maria via escritas no vidro do carro por onde espreitava a estrada gelada que a levava até casa.
Durante toda a viagem chorou e desenhou o percurso daquela relação. Tentou perceber cada detalhe, mas sem sucesso. Até que se rendeu ao cansaço, num conformismo tipico da exautão. 
Na sua cabeça só ouvia uma voz que lhe repetia uma frase.
- Meu anjo, minha querida, não fiques assim, no fundo, já sabias, já tinhas pressentido, não há nada de novo. Levanta-te, segue em frente! E não te esqueças, nunca te arrependas do que fizeste, porque só com os erros aprendes a crescer! 
Aceita a dor, abraça-a, dá-lhe o calor do teu coração e com o teu sorriso, ainda que molhado, segue em frente. Segue em frente.
Segue em frente! Segue em frente! Segue em frente!
Estranhamente, depois de lavar a alma, e purificar a raiva, aquela música e aquele percurso até casa, tinha-lhe acalmado o coração. 
De rosto lavado e alma pronta para recomeçar e enfrentar a dor, Maria deita o corpo triste naquela cama gelada.
Rezou e aconchegando o seu coração com a promessa de ser forte o suficiente para libertar todos os dias o seu sorriso pelo menos uma vez por dia, Maria adormeceu.
- Obrigada meu anjo.
CLR

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publicado às 21:46


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