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Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Oito


Longocaminhoparacasa

                 28

 

Maria, tinha um anjo… Mas de momento ela nem se atrevia a pensar nele… Sabia que se cruzasse com ele, iria ver no seu rosto, a base da cor da bendita chávena de chá.
- Do nosso chá… pensava alto Maria…
O chá que simbolizava o sermão.. Mas desta vez, estaria desenhado a vapor a palavra culpada…
Pintado com a cor de quem reconhece que fez mal, e está a consumir o castigo que merece…
Sabia que quando se cruzasse com o seu anjo, ela não lhe iria apontar o dedo, como todos os outros. Mas também não precisava…
Bastava aquele sorriso de carinho e protecção acompanhado com o olhar que lhe diz por palavras mudas:
- Tu sabias meu amor, eu avisei-te! Tu sabias… Anda cá…. Senta aqui ao meu colo… Minha menina dos canudinhos…. Deixa lá…. Vives-te! Dói, doeu… Mas vives-te sentiste… Sorriste, amas-te e agora…. Agora sabes o que tens de fazer….Anda cá minha menina… Errar é humano… anda cá minha princesinha…
Então, com medo, que o seu incêndio fosse apagado, esvaindo-se o calor numa imensa pedra de gelo, Maria preferia nem pensar no seu anjo. Não a queria encontrar presente numa luz das curvas do seu pensamento… Da sua consciência pesada…
Doía-lhe sentir o peso da culpa… Remoía-lhe a consciência do que sabia ser o bem, e o mal… Mas o pior peso que Maria sentia, era quando “sentia” o seu anjo… O rasgo que sentia no coração era de tal forma forte, que fazia uma ferida…
Quando bebia da cumplicidade do sentimento que a avó iria fruir, quando fossem ambas confrontadas das suas acções…. Da sua atitude.. A dor que Maria sentia, era tremenda… Sentia o que a sua avó, agora anjo, pensava da mesma forma. Pensava como a outra parte de si, também pensava.. Também sentia… Pensava como se fosse ela… Era como se ela fosse a outra parte de si.. Aquela que também sabia que a sua acção, era censurável, mas perdoável… Porque nestas coisas da razão e do coração, nunca há amor sem perdão…Nem nunca há mal que não tenha solução…
Sabia que quando encontrasse o seu anjo, se iria sentir pressionada a tomar uma decisão… A decisão que mais lhe doía tomar… Sabia que ela a perdoava como sempre o fez. Mas também sabia que a iria obrigar a escolher o caminho certo. A seguir o caminho considerado certo, obrigando-a a ouvir a razão!
A avó da Maria, agora seu anjo, sempre tentou vestir o coração com a razão… Mas no fundo, no fundo, Maria sabia que ela a percebia, e que afinal, quando chegavam as duas à tal meta das confissões, o peso do coração era elevado ao da razão…
Maria sabia que ela sempre quis parecer mais racional, do que no fundo era.. Agora percebia que seria porque lhe queria mostrar o valor da razão. A sua dimensão, o valor que a consciência tem…, Queria transmitir-lhe isso para que depois a sua princesa pudesse optar conscientemente. Consciente e armada contra todas as frentes que iria enfrentar para ganhar a sua luta… Para poder decidir com a força da guerreira que ela sempre quis criar…
Mas, Maria sabia tudo isso.. E compreendi-a de uma forma inexplicável…Então, Vivia, sorria.. Vivia a ilusão daquilo que no fundo parte dela lhe dizia ser um engano, enquanto a outra parte a fazia sonhar alto…
No entanto, sabia ser inevitável ajustar contas com o seu anjo…
Agarrou-se à almofada e pediu para que o seu anjo lhe guardasse o sono.
De modo silencioso lhe alisasse, os canudos do cabelo, e por motivo nenhum lhe tocasse na ferida… Largou a almofada molhada com a lágrima que deixou fugir, e murmurou baixinho.
- Desculpa. Desculpa a tua menina, mas o amor, tem destas coisas.. Eu sei… Eu sei.. Eu sei.. Mas eu amo-o tanto.. É um amor especial….. Eu sei que tu também sabes isso.. Também sentes isso…
Perdoa-me e ajuda-me que amanhã vou pecar outra vez… Vou deixar a carne às ordens do coração, e vou alimentar o meu amor, com o corpo que amo, mas, mas tenho consciência, não ser meu…
Deixa-me sonhar meu anjo… Guarda-me o meu sono e orienta o meu coração pelo meu caminho de casa….

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Sete


Longocaminhoparacasa

                 27

Mais um quilómetros aos ténis, e depois de devidamente trajada, resolve seguir o seu caminho.
Maria entrou no carro, ligou a chave, puxou o cinto, ligou as luzes e seguiu a estrada…
Seguiu a medo, com o coração cheio de amor, de loucura de esperança…
Libertando o sorriso receoso, Maria tinha fé no seu destino, no seu caminho…
Seguia pensando na decisão que tomara, olhando para a estrada, via o seu caminho.
O caminho mais longo que fez até casa… Ouvia o som do rádio que à medida que avançava, se tornava mudo e as luzes cegantes…
O céu estava escuro, a temperatura gelada e no seu rosto caíam as gotas de chuva que há horas estavam a ser bloqueadas… As gotas que com mais ou menos êxito tinham conseguido ser disfarçadas, ao mesmo tempo que eram contraídas cada vez mais as rugas que na testa lhe despiam o sentimento de melancolia, de fragilidade…
De repente, viu as nuvens dissiparem-se uma a uma. O sol, começava a brilhar radioso, tentando aquecer a sua alma, derretendo a sua dor.
A decisão estava tomada. Havia que seguir em frente, e beber da novidade.
Esperar, era a ordem! O tempo era a bússola que lhe iria indicar o caminho…
Estacionou, em frente à porta.
Resolver primeiro levar o seu companheiro a passear, aproveitando para esticar as pernas, enquanto ele fazia as necessidades…
Subiu carregada das malas e das recordações que não conseguiu esquecer quando entrou em casa…
Ainda com o copo de água na mão, com que matou a sede, Maria resolveu ligar o computador, para espreitar se ele estava online, mesmo antes de lhe responder à sms que onde lhe informaria que tinha chegado bem. Que tinham feito boa viagem… Ela e o seu mais fiel companheiro… 
Estava online.. De sorriso aberto, resolveu ficar a olhar para a janela do Messenger, e começou a escrever:
- Já cheguei amor, fizemos boa viagem. Viagem muito cansativa, mas já chegamos!
- Ainda bem amor, beijo para ti! Amo-te Muito e estou cheio de Saudades! Um abraço e um beijo muito apertado para ti e uma festinha ao REX! Até amanhã amor, não vejo a hora de te abraçar!
- Também eu, beijo, com AM.
CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Seis


Longocaminhoparacasa

26

Saltou da cama ainda não eram sete da manhã.
Veste o top, os calções e os ténis, e lá vai ela, para o seu treino matinal.
Maria, olha pelo retrovisor e avista o caminho que deixou para trás num sorriso de uma grande amizade. Uma amizade muito especial.
Dirigiu novamente o seu olhar para a frente, e deixou-se enfeitiçar pela cor do carro preto que seguia à sua frente… Cor, Marca, Modelo igual ao de Michael…
As estrelas ainda não se tinham recuperado do que viam, já presenciavam a comparência de novo ser…
Um ser que lhe ocupara amigavelmente o coração e a vida ha quase uma mão cheia de anos…
Levou a mão ao rosto, esticou os dedos que lhe limparam as gotas do mar, que sentia escorrer dos olhos…
As nuvens estavam curvas aos seus olhos, desenhando um ponto de interrogação…
No canto escorria uma lágrima do texto já escrito, por quem sabe o que se vai passar…
Deixar uma vida para nada… Lutar por nada… Apostar na solidão…
Sim era assim que ela no fundo imaginava ter sido o resultado da sua ultima opção.
Na rua, numa poça de água, espelha-se uma imagem num misto de medo, alegria e tristeza…
Maria, sabia… Pressentia, que nem tudo lhe tinha sido contado. Ela sabia…
Estaciona o carro junto à falésia.
Resolveu sair do carro, só para melhor sentir a brisa..
No chão, vê uma rosa, a mesma que tinha trazido consigo, há mais de um mês atrás…
Aquela de que tinha esperança…
Curva o esqueleto e segura-a com firmeza. No dedo fica travado um espinho. Ela leva o dedo junto dos lábios, toca no espinho e dá-lhe um beijo, sussurrando amo-te…
- Amo-te… Meu amor, Amo-te!
Foram mais de 10 quilómetros que limparam todas as mágoas, libertaram o sorriso e soltaram palavras ainda que solitariamente ouvidas.
CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Cinco (2ª parte)


Longocaminhoparacasa

                                    0225

 

LONGO CAMINHO PARA CASA - VINTE E CINCO (SEGUNDA PARTE)

Tanto um como outro dois excelentes amigos, ligados pelo gosto comum ao Rugbye ao Futebol. De gostos futebolisticos completamente opostos, tanto entre si, como com os de Maria. Facto que por vezes se relevou elemento de algumas gargalhadas e picardias humoristicas entre ambos.
Dois verdadeiros homens de negócios, maravilhosamente bem sucedidos nos negócios, mas aparentemente também eles muito mal resolvidos no amor.
Tal como o Rugby, revelaram-se almas coletivas de intenso contato físico, constituidos por jogadas irregulares da vida, marcando apenas o ensaio e o gol separadamente.
Todos constatavam a variação do valor do ensaio e da conversão e já decorriam alguns longos anos, e isso tornava-os cada vez mais unidos e mais amigos.
Mas, depressa se aperceberam do aumento do valor do pontapé de ressalto bem como do de penalidade, e tudo se resolve. Tudo se esclarece.
Maria, de facto podia não ter sido bafejada pela sorte do amor, mas sem duvida era uma felizarda nas amizades que lhe surgiam.
Tinha o coração cheio de amor, e a vida de grandes amizades.

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Cinco (1ª parte)


Longocaminhoparacasa

                                      0125

 

LONGO CAMINHO PARA CASA – VINTE E CINCO (Primeira parte)

A semana tinha sido passada numa nuvem de ansiedade.
Eram contadas as horas, os minutos sublinhados e os segundos riscados, como numa selecção de horas.
Entre horas boas e más, em detrimento do que pressentia estar a chegar…
Conduzia admirando as cores pintadas no céu pelo Sol.
A beleza daquele quadro fê-la voar como a gaivota salpicada de ondas, que avistava. Vinha fugida do mar, em direcção a si…
Adorava passar naquela estrada, quase beijada pelo mar...
Devagarinho, de janela aberta, podia sentir a brisa da maresia, e embriagada por ela, nunca deixava de sonhar…
Enquanto seguia na estrada, Maria, deixou-se voar. Na tela passou o filme do seu Longo Caminho para casa.
Passavam na sua mente, em câmara lenta, uma serie de episódios, com uma serie de personagens… Entre lágrimas e sorrisos, ficava-lhe sempre no rosto uma ruga de saudade, uma expressão de sorriso, uma boa recordação.
Sentia que tinha um dom. O Dom de aproveitar só o lado bom das coisas.
Quando transformava o mau, em lição de vida, restaurava-o, pintando-o da cor do sorriso, do perdão…
Tudo fica azul, bonito como o mar, como céu…
Amarela como a areia da praia, ou, tórrido como a cor do Sol…
Pensava na vida, na amizade, procurando explicações para os acasos de encontros e desencontros, regados com sorrisos.
Pensou no Garry e o sorriso abriu-se … Um grande homem, um grande amigo, sem duvida…
Maria sentia-se uma felizarda. Tinha alguns bons amigos, que podia considerar verdadeiros!
António, trajado com o seu fato protector de seda bordada no seu sorriso de galã. Mas um optimo amigo, uma optima pessoa.
Filipe, uma rosa em botão, navegando na ponte, olhando para trás e soltando um abraço quebra ossos quase tão sentido como imaginado…
Michael, e Gabriel, o primeiro plantado em lages e seguro na vida como fortes ramos colados às árvores, o segundo fruto da cepa forte, com grandes bagos doces e saborosos.
Grande postura, e educação requintada. Viviam num mundo completamente do de Maria. Mas isso não os impedia de disfrutarem de uma belissima e engraçada amizade.
CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Quatro


Longocaminhoparacasa

                            24

 

Maria fechou o coração para o reino. Construiu-lhe um muro bem alto ao redor, e não deixou entrar ninguém.
Para Maria a vida já se trajava com algumas faces. Alguma magia, de alguns paraísos maravilhosamente construídos, de alegrias, de algumas vitórias e conquistas alcançadas, mas acima de tudo de muitos sorrisos!
A vida para Maria não tinham sido só lágrimas, tristezas, fustigações, e desafetos. Não eram só amarguras, de solidão e da imensidão. A vida de Maria não era assim.
Mas naquele momento havia um vazio que a devasta. O seu coração estava frágil e havia que protege-lo..
E agora, estava ela ali… Debaixo do alpendre, sentada na cama de baloiço, vendo as nuvens passar, segredando-lhes a lágrima do percurso que ela mesma acabara de fazer… E agora perguntava-se….
Para onde seguir? Que caminho será o seu?
Maria, procura no céu uma resposta, mas do sol, nada vê…
A tarde estava fresca, no céu estavam pintadas as nuvens… O cinzento do dia, molhava a sua vida, como quem se despedia do verão, e abria portas ao Outono…
A sua pele estava arrepiada, como quem precisa de calor… Como quem precisa de sol… Como quem queria ser aquecida com o amor do sol… Mas, o céu continuava cinzento, a luz, tal como o sol, tapada pelas nuvens do dia… E naquela tarde, Maria, sentia no rosto as gotas de chuva caídas do céu. No céu rompiam relâmpagos e trovões gritando tristeza, como quem se despedia do sol, quente e radiante…
Maria, ergueu-se sentindo a chuva… Levantou o rosto para o céu, e em voz muda gritou ao sol:
- Todas as noites irei tentar ver a lua, amor… Todas as manhãs, em que verei o nascer do sol, em todas as tardes que esperarei pelo por do sol, em todas as noites que esperarei pela lua, eu irei-me lembrar de ti… Irei-me lembrar de nós….
Depois, levou a mão aos lábios, e enviou um beijo …
O sol, sobrepôs-se à nuvem que o cobria, como quem tinha ouvido a musica e sorriu.

CLR

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Três (2ª parte)


Longocaminhoparacasa

         23 2

 

LONGO CAMINHO PARA CASA – VINTE E TRÊS (continuação)

Bem, na verdade, este sentimento é confirmado por todos aqueles que lá entraram, e que conheceram um pouquinho do seu coração, que conviveram com o seu sorriso. Esses raramente querem sair…
Maria, estava agora em frente a mais uma mazela, mais uma ferida. Mais uma mágoa, mais uma cicatriz. E desta vez sentia-se verdadeiramente derreada, enganada, e vencida pela mentira.
Mais uma vez a mentira, a confiança havia sido quebrada, e o coração estava despedaçado. 
Mas, agora havia que seguir em frente… Limpar as lágrimas e primeiro resolver as coisas. Depois, o que tiver que se arranjar, os pedaços do coração que tiverem de ser concertados ou curados, o que tiver que ser feito, Maria fará. Seria desta vez que Maria fechava o coração para o reino deste mal?
Maria, resolveu escrever. Os desabafos passados a letras amorteciam-lhe a dor, passando a ser um óptimo medicamento.
Um blog, de uma ninfa, cheio de chocolate, desabafos e amor.
Naquele dia Maria escrever:
Hoje
Hoje desejo recordar 
quem por mim passou.
Hoje apetece-me desejar 
os abraços e os beijos,
as palavras e os olhares,
o amor desenfreado
o desejo a latejar
os sorrisos e os toques
os momentos de mãos dadas a conversar
os corpos
na loucura do desejo 
e os jogos proibidos
as promessas de prazer que ficaram por cumprir
as mensagens loucas a meio da noite 
e aquelas que nunca chegaram...
Hoje apetece-me recordar 
sentimentos e momentos
os sorrisos e as lágrimas, 
misturados algumas vezes
com a conquista do amor e do prazer...
Hoje QUERO recordar 
quem me fez sentir desejada e amada
quem me secou as lágrimas da alma
quem me fez abrir o coração
quem me soube ler e sentir
quem me fez sorrir.
Hoje RECORDO o quanto amei 
penso em quem desejei
e um dia chegou à minha vida 
e nunca dela quis sair...
HOJE

CLR

 

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e três (1ª Parte)


Longocaminhoparacasa

23 1

 

LONGO CAMINHO PARA CASA – VINTE E TRÊS

E ali acabara de brotar a semente do sentimento mais digno que pode no mundo existir… Mas, tal como pressentido, depressa da rosa brotou o espinho presentido mas maravilhosamente desconhecido até então. No coração de Maria explodiu a mágoa. 
Mas ela sentia-se destroçada e que não conseguia ser forte o suficiente para fazer esquecer o amor… Outra coisa que Maria já tinha aprendido é que o amor, está para distância, como o vento está para o fogo. Se o vento, for forte incendeia, se for fraco apaga o fogo… 
O da Maria tinha sido forte o suficiente para incendiar e depois se transformar num misto de sentimento nobre onde reinava a amizade, o carinho, uma espécie de amor platónico e respeito… Acima de tudo respeito… 
Ficaram as cinzas!
É este o sentimento aristocrata, que nunca deixara de sentir, por quem Maria deixou entrar e permitiu que lhe beijasse a alma.
O coração de Maria tem um salão enorme. Grande, mas sem grandes luxos. Apenas com um conforto resumido ao amor, carinho e dedicação… Diz quem a conhece que, depois de lá entrar e beber do seu chá de entrega, é impossível esquecer… Pode vir no mundo a tempestade que os obrigue a sair, mas esquecer nunca…
Muitas vezes, Garry dizia por palavras mudas, do alto do seu clamoroso sorriso branco: - É impossível não ficar derretido perante tamanha beleza, perante tamanha simplicidade, perante tamanha entrega, perante tamanha dedicação…
Depois da sua boca saiam beijos que lhe traziam mimos tais como:
- És linda princesa, linda… E não é só linda de carne… É nesse teu reino do coração! É esse teu lindo coração! És linda, e nunca deixes que te tentem convencer do contrário, sim? Já António, dizia que Maria era uma mulher extra-ordinária! Alguém que preenchia perfeitamente os seus requisitos. Linda, sedutora, espectacular. Perfeita para o sua boa forma física, e doce para as suas necessidades. Amiga para o acompanhar nos momentos de solidão que passava longe da sua terra natal.
CLR

 

15
Mai19

Longo caminho para Casa - Vinte e Dois


Longocaminhoparacasa

                2201-COLLAGE

Nasceu!
Nasceu novamente o sentimento nobre.
Aquele sentimento mais nobre que pode existir…
Não há protecção que lhe valha!
Quando não se espera nada, quando se vive a sonhar acordada, vive-se na ilusão.
Maria saíra de casa, ainda não tinham batido as oito badaladas, no relógio de pé, instalado no corredor.
Descia no elevador ao som da música criada pelas badaladas daquele que aos seus olhos seria um grande e admirável objecto de estimação.
Seguia a estrada como quem comanda mecanicamente o veículo, e deixa o pensamento voar para bem longe dali…
Não o achava nem pouco nem muito atraente, nem era o tipo de homem que lhe costumava roubar o olhar ou cativar a atenção, mas nele havia algo que Maria não soube descrever, e que lhe estava a preencher o pensamento.
Uma empatia, uma sensação de que já se conheciam há centenas de anos, que já partilharam meio século e mais outro, de vida…
Só sabia que ele lhe parecia uma pessoa amável e simpática. 
Além disso, havia qualquer coisa naquele homem que a fazia ficar ali a pensar na noite anterior, relembrando as conversas sobre ninharias, de tudo e nada, que tiveram.
Era como se, junto dele, estivesse em segurança durante um bocado, e nada de terrível lhe pudesse acontecer. Era como se o coração de Maria estivesse em segurança com Filipe.
Ele dava essa sensação.
Mais havia mais…
Numa noite, Maria recebe no seu sono um maravilhoso sonho. Nele teve a visita da estrela duplamente maternal que tinha no céu.
O seu anjo da guarda, estava insitêntemente a aparecer-lhe em sonhos e a insistir que acordasse.
Alguma coisa estava para acontecer. Maria já tinha a certeza disso…
Mas se por um lado Maria já esitava, por outro havia aquela sensação de simpatia que lhe era demasiado familiar. 
Aquela sensação condimentada com uma nuvem de paz e sossego, regada com carinho e protecção.
Maria seguia viagem conduzindo o seu branquinho e parecia ter entregue o seu corpo ao sonho e só foi acordada pelo sorriso que esboçou devido à melodia que tocava naquele preciso momento, na rádio que sempre ouvira, RFM,
“ Tu eras aquela
que eu mais queria
para me dar algum conforto e companhia
era só contigo que eu
sonhava andar
para todo o lado e até quem sabe
talvez casa
ai o que eu passei só por te amar
a saliva que eu gastei só para te mudar
mas esse teu mundo era mais forte do que eu
e nem com a força da musica
ele se moveuuuuuuuuuuu….”
O sorriso de Maria esticara-se até perder de vista…
Embriagada pelo pensamento e pela melodia, teve o pressentimento de que naquela estrada, por aquele caminho, podia haver perigo, mas aquele momento era tão bom… 
Talvez pelo aparecimento de elementos perigosos ou imprudentes, o tal objecto que definira como temerário e temivel, o recomendável seria a fuga, pensa ela…
Mas parecia inofensivo, ela nunca se poderia apaixonar por um homem assim. Alguém que lhe passara sempre despercebido na rua ou em qualquer outro lugar…
Quando acordou já tinha estacionado, e já estava na fila da máquina para tirar o bilhete do metro…
Apesar de adorar gerir a sua economia, havia um aspecto nela que por vezes a fazia derrapar no défice e fazer estas excentricidades de comprar o bilhete do metro, em vez do passe que lhe ficava muito mais em conta… 
Andava sempre em excesso de velocidade, e o relógio no seu pulso parecia correr mais depressa, compassado com as suas batidas cardíacas, acelerando o ritmo das horas, transformando a falta de tempo e a distracção num real problema…
Maria era uma mulher. Uma mulher desde muito cedo corredora. Mas tão doce e completamente viciada em chocolate.
Maria era uma mulher!

CLR

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Um


Longocaminhoparacasa

21

Maria saiu da reunião já em passo apressado. Ainda precisava de passar em casa, deixar a pasta e a papelada, tomar um banho, dar um jeito na sua indumentária. Queria sentir-se menos formal, e mais à vontade.
Vestida com umas calças de sarja simples, um casaco de traçar e uma blusa branca por dentro, olha-se ao espelho e sorri..
Sentia-se muito melhor assim…
Pega nas chaves do carro e segue a correr o seu caminho. 
Caminho cujo destino era sem saber, não mais uma paragem, mas uma das paragens mais marcantes, do seu percurso de vida…
Enquanto descia a Avenida da Republica, pensava:
De inicio apenas se conheciam palavras, frases… Mas naquele dia, sim, naquele dia, iam conhecer-se gestos, expressões, sorrisos, e reacções.
E a reacção não podia ser melhor… Nem muito bom, nem muito mau… 
Simpatia, sorriso, simplicidade, educação e de aparência muito agradável…
Algumas voltas à praça procurando estacionamento… Mas, não estava fácil, como ele gostava de dizer… 
Enquanto ela estacionava o carro, ele observava-a de longe… 
Ela sentia o olhar de Filipe, como raios de sol a aquecerem o seu corpo, e sentia-se bem… Uma sensação agradável, de carinho, protecção e até um pouco de familiar… Embora não existisse nenhuma razão para que o sentisse, naquele momento de inicio, ela sentiu-o…
Apetecia-lhe sorrir, porque se sentia bem…
Gozaram da companhia um do outro, e o sentido das suas palavras só foram partilhadas em segredo com a nuvem de fumo que os envolvia, transformando-se no elo de separação das mesas gémeas, e de todas as outras almas gémeas, que pudessem existir ali naquele simples bar…
Conversa com café e muito fumo no meio da confusão e daí sem saberem, estava a renascer o início de uma amizade que viria a vestir a pele de um monstro transformador de sentimentos… Pois foi daí que nasceu o sentimento mais nobre que pode existir…
CLR

15
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte


Longocaminhoparacasa

20

A noite estava estrelada. 
Do manto azul brilhavam sinais de uma ninfa docemente envolta em chocolate, ora doce, branco, ora amargo, saboreado ao som de um Primeiro beijo, Paixão, ou o Prometido é devido, com um cavaleiro andante que mais tarde soou a não queiras saber de mim, e nunca me esqueci de ti.
Tudo por causa das pontes. 
Do seu significado já luzia a convicção que nada se poderia construir, porque nada havia para construir se não mais uma amizade. 
Maria tinha fechado o coração ao mundo.
Tinha criado um muro, onde protegia um mundo só seu, onde só deixava entrar quem fosse insistente e lhe provasse ser digno e merecedor da sua confiança. Por isso nada mais ofertava se não uma amizade, e alguns sorrisos.
De peito aberto, seguiu como quem pega numa folha em branco e confiantemente, começa a rabiscar o desenho que imaginou.
Desenhou e pintaram mais, mas começaram por desenhar aquela amizade.
Fizeram-no e fizeram muitíssimo bem, de tal modo que construíram uns alicerces que permitiam a construção de um aranha céus.
Uma afeição, uma estima, uma simpatia, apreço, um apego, uma cordialidade linda, que construiu uma amizade maravilhosa e robusta que perdurou e perdura ao longo do tempo. 
Ambos ganharam, lucraram daquela uma amizade maravilhosa que ofertaram naturalmente um ao outro, como se oferecem flores, a quem gostamos e recebemos com sorriso, de quem gosta de nós…
Com ela, ou com eles, o comboio seguiu…
O nascer do sol era cada vez mais lindo, aos olhos da Maria brilhavam cada vez mais, e tudo parecia crer que aquele havia de ser um dia especialmente deslumbrante e inesquecível para ambos…
Sem a mínima expectativa, sem nada esperar, sem nada sonhar…
Estavam a conceber um novo amor, uma paixão, construída sobre uns alicerces de uma amizade inabalavelmente inquestionável.

CLR

15
Mai19

Longo Caminho para casa - Dezanove


Longocaminhoparacasa

19

 

Aquela imagem, aquele reflexo...
De estetoscópio a bisturi, inexplicavelmente trocado pela dourada espada numa fase inicial, e posteriormente pelo escudo, capacete, bastão e algemas. 
Primeiro os códigos e depois a toga, cruzaram-se com estas duas realidades. 
Maria aprendeu assim a abrigar o seu coração no caminho desenhado pela cabeça e sem qualquer protecção.
De coração amarrado, Maria julga-se imune a algemas e bastões pega no seu veículo e segue sozinha, sem qualquer protecção naquela estrada de corpo e alma.
Maria, era já uma jovem estudante universitária em fim de curso, aproveitando todos os minutos da vida, quando conhece Filipe um jovem profissional, que aproveitava todos os segundos dos minutos de todo o tempo que tinha livre na vida…
Sorriso contagiante, descontraído, confidente, bem composto, sempre amável e educado nas carteiras de uma escola onde há terras de grandes barrigas, onde as sopas chamam-se de açordas, as milhaduras são gorjetas, as encostas são chapadas e os açoites se dizem nalgadas, como reza a letra da canção magnificamente cantada pelo Antonio Pinto Bastos.
A profissão de Filipe foi a alcoviteira daquela relação. 
Já era um caminho conhecido de Maria, e os seus passos naquela estrada eram calculados ao milímetro, tamanha era a sua ideia de respeito e “justiça”.
As profissões cruzavam-se várias vezes na vida, e como assim era já reinava a descrença, a desconfiança que por vezes no coração de Maria, ainda estava muito fresca, muito recente. 
Por isso todas as palavras que lhe saiam da boca, saiam-lhe da razão, e nunca do coração.
Estavam unidos pela ideia da justiça, e a sua experiência recente, não tinha sido muito gratificante para o coração de Maria.
Com ela estava colada e assente a ideia de que nada mais que uma amizade dali podia surgir.
Maria já tinha aprendido que sexo é uma necessidade, e que amor era foda, e o respeito, a cumplicidade e a amizade, eram o melhor alicerce que o amor podia ter.
O amor era foda na medida em que nos torna dependentes, porque teima em passar o visto de condecoração ao coração, que fica com a mania de ser obediente a outrem que não o seu corpo e a sua cabeça.
Quando o coração ignora a razão, está tudo tramado.
O amor torna-nos reféns de nós próprios.
Aquele que é rei e que esta dentro de nós, aquele que dizem que nos dá vida, é tramado, quando quer mandar na nossa vida.
Porque no fundo, ele não existe, ou não tem grande valor sem o outro senhor verdadeiramente rei, que é o cérebro, mas ele tem a mania, e pronto. Marca o caminho.
Isto, Maria já tinha aprendido. Mas havia qualquer coisa. Havia mais qualquer coisa que Maria tinha de aprender. Havia outra caminho que Maria tinha de percorrer.
Inexplicavelmente as pernas de Maria mexiam-se, os pés ganhava vida, e o sentimento que reinava desenhava-se na ideia de que era preciso que, sem medos, seguisse em frente, sem destino. 
Aquela imagem, aquele reflexo.
Tinha que conhecer aquele caminho, seguir aquela estrada e deixar as marcas fazerem parte do seu caminho.
CLR

 

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezoito


Longocaminhoparacasa

0118-COLLAGE

LONGO CAMINHO PARA CASA - DEZOITO
Maria seguiu o seu caminho…
Os pássaros cantavam e também alí naquele quarto simples e frio de luxos e conforto, lhe faziam visitas de cortesia e lhe cantavam à janela encantando-lhe o sorriso.
À noite, Maria falava com as estrelas que estranhamente se deixavam ver no escuro daquela cidade da capital.
Havia uma que todas as noites lhe piscava num brilho cegantemente protector e com cheiro a um grau duplamente maternal, libertando um aroma de amor puro, cego e cúmplice. Ofertando-lhe assim a segurança de que Maria tanto necessitava.
Enquanto a admirava e lhe confidenciava as suas vivências, Maria abastecia o seu coração de amor, alimentado-se com a força, protecção, confiança e determinação necessárias a mais um dia que se adivinhava romper.
Nas noites em que a lua o permitia, Maria também a contemplava.
Segredava-lhe também o conteúdo do seu coração, e tudo se tornou mais normal, acostumando-se à sua realidade emocional frágil e doce.
Maria sentia-se assim mais acompanhada, 
Era como se do outro lado, ou de algum lado do mundo, Maria pudesse ver reflectida alguma compreensão e empatia.
Aquela empatia que tanto procurava no caminho até então percorrido, e que a vida teimava em não lhe mostrar na realidade. 
Admirando-a Maria sonhava que existia alguém em algum ponto do universo, com o mesmo sofrimento que o seu, com o mesmo sentimento. 
Alguém que tivesse o coração partido tal como Maria tinha, e que estivesse também ela contemplando a lua, alimentando-se do seu poder.
À noite, sentia-se assim acompanhada por a sua grande amiga e confidente Lua. 
Quando raiavam os primeiros raios, Maria saía à procura da luz, do brilho, e do calor do sol que lhe aquecia o corpo, e adoçava o coração.
Apanhou a carruagem e seguiu a viagem contando dias, semanas, meses e anos.
A próxima paragem, foi apenas mais uma das paragens do seu já longo percurso, em que bebeu da vida mais uma vez aquele doce sumo…
Mas desta vez uma seiva diferente de todas as outras.

CLR

 
14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezassete


Longocaminhoparacasa

01017-COLLAGE

Uma vida.
Dois percursos percorridos, dois caminhos falhados.
Duas mentiras necessariamente vividas.
A primeira a perfeita. Mas ambos a haviam deixado esmorecer-se, por conta de descuido, de imaturidade, ou mesmo de amor. Talvez, fosse isso.
Vivida a paixão, não sobreviveram ao amor, que deixaram morrer precocemente.
Ainda hoje Maria pensa na resposta. 
- Se será essa a verdade. Ou qual será a verdade?
Porque morreu? Por falta de amor, por falta de maturidade, ou por ter acabado a paixão?
Porque não lutavam os dois? Porque não lutava ele por ela? Acabou a paixão? Encontrou um novo amor? Ela não era boa o suficiente para si?
Estariam destinados apenas à amizade eterna?
Maria pensava que não era suficiente, e que as diferenças sociais que tinham e que aparentemente não tinham importancia, afinal, estavam a revelar-se fundamentais para os afastar.
Não lutaram, porque nem sequer fizeram planos. 
Viviam o dia a dia, e nunca repararam, nas flores que rodeavam a pureza do seu amor, nas gotas de chuva, nos flocos de neve, no cheiro dos malmequeres, no jardim florido que acompanhava o lar daquele amor genuino…
Talvez fosse por isso, que não repararam que as flores tinham sede, as àrvores tinham os ramos secos, e as ervas daninhas já eram mais que muitas.
Maria sentia que era melhor na amizade do que no amor. Na verdade, acho que nunca acreditou no amor genuine e puro. Naquele amor verdadeiro, sem interesses, sem carne, tolerante, cumplice, sentido!
Com Maria, talvez por fruto da idade, era tudo paixão, fogo, e quando as brasas se iam apagando, reinava a insegurança, e depressa desistia, e aceitava a amizade como punição. 
No amor, Maria, não era guerreira. A vida havia de lhe ensinar a se-lo noutras coisas que lhe pintaram a vida miseravelmente, mas no amor não.
Mais uma vez, voltou ao mesmo destino.
Maria sentia que nada era reciproco. Que a sintonia da paixão se tinha esvaido nas ondas e perdido no mar.
As suas lutas eram solitarias. E de nada valia procurar. Porque o que acabava por encontrar acabava sempre em nada.
E o caminho para chegar ao nada, era tão doloroso que não valia a pena a docura de algumas curvas.
Resistiu enquando pôde, mas sempre ciente de que o objectivo era atingir o NADA. Não havia cumplicidade, e a sua insegurança e o medo de falhar, não lhe permitia lutar para que o amor se instalasse confortavelmente no seu coracão.
De tal maneira que, quando deu por isso, já a neve pintava a Estrada da segunda viagem.
Mas, a segunda viagem não se revelou de todo melhor que a primeira. Diferente, mais madura, mas tal como Maria, replete de paixão, e ilusão, e claro está extremamente insegura e frágil.
Chegara ao dia em que havia de dar um rumo à segunda viagem.
Combinaram um encontro e lá foi Maria, a conduzir ate à estação onde decidiria o rumo daquele itinerário.
A neve luzia de tal forma que era nela que Maria via as luzes do caminho em que passavam as rodas conduzidas por si, até à estação ferroviária.
Chegada ao sitio, cujo nome, seria de um objecto recto em que estão bem demarcadas as medidas que ajuda a medir, objecto cujo nome partilha com aquela belissima terra.
Vigiada pelo magnifico Douro, a quem Maria segredava e desabafava os seus medos. 
Olhava as águas do rio e pensava nas suas magoas e, em como havia de lutar entre o desejo que o coração transbordava e o medo que a razão teimava em lhe adocicar a consciência do temivel fracasso que aquela viagem se adivinhava. 
Finalmente chega e encontra algumas máquinas de tracção a vapor abandonadas num terminal de linha completamente desactivado, facto que a fez pensar no preludio do lugar, no Douro, e na viagem fracassada no tempo que pressentia daquele reencontro decisivo.
Estaciona junto à estação, e lá estava a estalagem.
Simples, mas decorada do amor que se teimava em despedir deles.
Suaram, desobstruindo o desejo, a avidez lascívia de dois corpos sedentos e replectos de paixão e saudade, sem dizer uma única palavra.
Em silêncio libertaram todo o suor das lágrimas e de desejo naquela misera e oculta despedida.
Com a cabeça na almofada meticolosamente amarrada de esguelha entre os seus braços, Maria quebrou deleitada, suplicando ao silencio que permanecesse no quarto.
No grito de um toque suave, António, desvia-lhe a madeixa de cabelo despenteado que prepositadamente lhe omitia o rosto escondendo-lhe o olhar. 
Abre assim caminho para que os seus olhos e os da Maria falassem aquilo que ambos os corações temiam.
Maria já havia pressentido a existência de uma noticia que não só lhes mudaria o rumo, do nada que já tinham, mas lhes indicava o caminho do inicio de uma viagem solidária a dois.
E assim, foi. A paixão que tinham não era suficiente para ela aceitar tal noticia. Para ela era o fim!
Depois da confissão, o olhar molhado confessou o desfecho daquela relação, e ditou mais uma vez o inicio de uma amizade frustrada por amor.
No percuso até casa, o branquinho escorregava na neve, como as lágrimas gelidas que lhe escorriam no rosto.
Maria sentia um misto de raiva, de dor, de inveja. 
Sentia-se um verdadeiro trapo, rasgado, velho, inútil, e desnecessário. E culpava o seu coracão, por se deixar iludir tão facilmente, pensando que podiam construir algo melhor! Sentia-se um verdadeiro animal irracional, um asno!
Perguntava-se, como poderia ele achar que ela aceitaria tal situação? Veria ele assim nela uma mulher tão burra, tão fraca, tão carente? 
Poderia ter sido só carne o que viveram? 
Apenas sexo, e demasiado tempo livre?
Tantas perguntas Maria via escritas no vidro do carro por onde espreitava a estrada gelada que a levava até casa.
Durante toda a viagem chorou e desenhou o percurso daquela relação. Tentou perceber cada detalhe, mas sem sucesso. Até que se rendeu ao cansaço, num conformismo tipico da exautão. 
Na sua cabeça só ouvia uma voz que lhe repetia uma frase.
- Meu anjo, minha querida, não fiques assim, no fundo, já sabias, já tinhas pressentido, não há nada de novo. Levanta-te, segue em frente! E não te esqueças, nunca te arrependas do que fizeste, porque só com os erros aprendes a crescer! 
Aceita a dor, abraça-a, dá-lhe o calor do teu coração e com o teu sorriso, ainda que molhado, segue em frente. Segue em frente.
Segue em frente! Segue em frente! Segue em frente!
Estranhamente, depois de lavar a alma, e purificar a raiva, aquela música e aquele percurso até casa, tinha-lhe acalmado o coração. 
De rosto lavado e alma pronta para recomeçar e enfrentar a dor, Maria deita o corpo triste naquela cama gelada.
Rezou e aconchegando o seu coração com a promessa de ser forte o suficiente para libertar todos os dias o seu sorriso pelo menos uma vez por dia, Maria adormeceu.
- Obrigada meu anjo.
CLR

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezasseis


Longocaminhoparacasa

                       16

O dia havia sido demasiado longo.
A noite estava escura, mas, no céu brilhavam as estrelas.
As aulas tinham terminado. Já só lhe restava o longo percurso até casa.
Conforme caminhava ao som da música dos seus passos, pensava em como estava cansada e desejava não ter de atravessar lisboa, mas que a sua casa fosse logo aí no virar da esquina.
De repente avista o amarelinho de janelas brancas que romanticamente caminhava nos seus carris.
Segura firmemente a pasta que trazia na mão esquerda, com a direita aperta a mala contra o seu corpo e pensa, vou apanhar-te numa corridinha.
Do pensamento passou à acção. E não é que apanhou mesmo?
Subiu, e enquanto ainda pensava na sorte que teve, e que talvez a noite não se revele como o dia, é acordada com a travagem brusca que o guarda-freio acaba de fazer, espetando-a directamente contra o banco lateral que por sorte se encontrava desocupado.
Olha em frente vestida do seu olhar de reprovação e … Tem uma miragem. Não é que apanhou mesmo?
Viu a maré, e lá bem no fundo, o marinheiro que a gaivota levou. Tanto sonhou contemplando o mar, tanto sorriu quando avistava um barco que navegava lá longe no mar, sentindo o coração a acenar, querendo sonhar mais, tanto fez, que, alí estava. 
Sonhou que num dia ensolarado e quente, em que estivesse no cais, a maré lhe trazia de volta o seu sorriso, tal como já lhe havia trazido naquele velhinho electrico, e, alí estava ele de novo.
Num electrico mais novo, novamente aquele mesmo sorriso irritantemente bonito, e apaixonante.
Viu tantas mares que lhe perdeu a conta, mas não foi no caís que o reencontrou. Foi naquele que se tornou o seu ponto de encontro na capital! 
A alcoviteira amarelinha que navegava em longos carris, passeando-se pela capital, espalhando cupidos, unindo corações oriundos dos mares do norte.
CLR

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quinze


Longocaminhoparacasa

          015

Começara assim mais uma etapa. Mais um percurso de luto, de dor, e ilusão.
A ilusão do teste aprovado de quem não aprendeu a lição…
Ela seguiu o seu caminho. Desejando esquecer, não voltar a ver, a ter, a sequer encontrar ou se cruzar. Desejando acima de tudo esquecer e sobreviver para um dia poder viver.
O tempo foi passando… As flores foram crescendo, todas as mares foi sentindo, até que a neve voltou a cair.
Parece que via em cada maré, o marinheiro que a gaivota levou. Sonhava contemplando o mar, sorria quando avistava um barco que navegava lá longe no mar, sentia o coração a acenar, querendo sonhar mais.
Sonhava que num dia ensolarado e quente, em que estivesse no cais, a maré lhe trazia de volta o seu sorriso.
Viu tantas mares que lhe perdeu a conta.
Deixou de contar as gotas de chuva que limpou das janelas em que via o passado a sorrir-lhe.
Sentiu a neve fria. E nunca mais fez o boneco de neve…
Na cidade, o eléctrico corria nos carris, em que via a luz do rio reflectida na janela. Que linda capital, que linda esta cidade, de encontros e desencontros.. Seria essa a sua sorte? Esse era o seu segredo.
O seu desejo, e o seu segredo!
Em cada rosto via uma imagem. Um ramalhete de sentimentos, quando sonhava ver nuns olhos, aqueles que nunca esquecera.
O sorriso. Não apenas um sorriso, mas aquele que era capaz de acender o seu!
No ano de dois mil e dois, seguiu, até à próxima paragem….
E foi aí, naquele bendito eléctrico, nessa paragem, que fez a sua próxima paragem.
Foi apenas mais uma, de reencontros, em que ela voltou a beber da vida o sumo do sorriso em que constatou que nada se passou, que nada aprendeu.
Sentiu que nada viveu, não havia vivido. Nada! Nada que lhe pudesse ter ensinado a fórmula da protecção… Aquele olhar, aquele sorriso…

CLR

13
Mai19

Longo Caminho para Casa - Catorze


Longocaminhoparacasa

                14

 

Num dia de sol brilhante, ela acorda com um telefonema…
- Preciso ver-te, amor…
Na sua cabeça fez-se luz…
Seria aquele o momento da despedida…
Havia de aprender alguma coisa desta lição…
Assim o fez…
O dia estava lindo, a tarde tornou-se quente e nos olhos dele, ela sentia o brilho dos seus, desenhados numa mensagem de despedida…
Quando fecha os olhos ainda sente o cheiro a relva cortada. O azul do céu. As guardas à porta do Palácio.
O cheirinho aos pasteis que ficaram com o nome do lugar.
O rio.
O rio que tantas vezes foi testemunha, dos nossos passeios.
As mãos entrelaçaram-se como nunca, como quem, não quer largar.
O beijo de despedida num até amanhã.
Sem saber bem qual.
O olhar. O olhar disse tudo o que da boca não saiu.
O coração percebeu. A cabeça esfregou na razão, o que o coração não queria ouvir.
Mas o coração percebeu, e as lagrimas fugiram-lhe dos olhos, lavando-lhe o rosto.
Passaram-se semanas, até tomar consciência de que existia.
Passadas umas semanas, e alguns telefonemas e sms, não atendidos ou respondidos, ela percebe que chegou o momento de tirar, de levantar o escudo… E enfrentar a dor que já não conseguia esconder.
- Sabes onde estou?
- Sei, estás em casa, que é onde deves estar…
- Na nossa?
- Não, não TUA…
- Calma amor, precisamos de conversar.
- Não há nada para conversar… Só mais uma coisa, podias e devias ter-te despedido de outra forma… Por palavras podias ter-me dito que ias para casa…
- Primeiro, não podia, porque não me despedi, nem despeço de ti nunca;
Segundo, não vim para casa, porque a minha casa não é esta…
- Problema teu…. Beijo vou desligar
- Amor, não desligues, vou a Lisboa amanhã, ok?
- Podes vir quando e as vezes que quiseres, mas a minha companhia, nunca mais vais ter. Pelo menos, não vais ter como e da forma que tiveste…
E assim se baixa um escudo….
Mesmo sem se aperceber Maria deixava falar o coração.
- Maria, por favor, não fales assim… Não queres que eu vá, eu não vou. Tens toda a razão em estar magoada, eu percebo-te… Precisas de tempo, mas promete-me amor, quando vieres cá, vamos conversar os dois… Está bem? Estás ai? Ainda estás aí amor? Prometes amor?
- Estou! Adeus, até sempre, beijo e sê feliz
CLR
 
13
Mai19

Longo Caminho para Casa - Treze


Longocaminhoparacasa

                treze

 

Muitas vezes, durante esses dois anos, ela se olhara ao espelho e perguntava:
- Que nome se dá?
Que mulher seria… Que homem seria…. Quem é? O que chamam?
Tantas perguntas de respostas tão cruamente sentidas.
Automutilando-se com as respostas, aliviava as lágrimas que sentia a escorrerem-lhe do rosto.
Vivia momentos de angustia, mas depressa se desculpava com as dificuldades da vida.
O amor é fogo que não se controla.
O coração, e o facto de não haver rebentos, e as juras de amor eterno, anemizavam-lhe o coracão mutilado…
- Se te tivesse conhecido antes… Se tu não tivesses fugido.. Se não tivesses desaparecido, tudo teria sido diferente…- disse-lhe ele tanta vez…
E ela ouvia as suas palavras como se fossem alimento para a sua fome, acreditando como quem acredita nas lendas que sabe serem apenas isso. Lendas… Palavras… Mas ao mesmo tempo, eram para Maria as palavras que ela precisava ouvir, para se alimentar.
Para se alimentar do mínimo da razão e continuar a viver esse amor de ilusão, de mentira, de falsidade e traição.
CLR

13
Mai19

Longo Caminho para Casa - Doze


Longocaminhoparacasa

      doze

Aquele que viria a ser a sua primeira lição de vida, foi também sem duvida a primeira lição que não foi aprendida…
Uma aventura, em muitas noites de céu estrelado, iluminados num amor sempre sonhado que acorda em pesadelo… Mais uma vez a sua técnica preferida, a fuga… A fuga, foi desde sempre a sua arma preferida… E mais uma vez, não hesitou em usa-la, como quem arruma a espada, e levanta o escudo, para se proteger…
De volta à sua vida, aceita reconstruir, aquilo que ambos vieram a perceber ser uma ilusão…
Ela começa a sobreviver numa estrada por si construída, ele começa a revelar-se a pessoa que ela nunca tinha conhecido…
Duas primaveras em permanente sono de pesadelo, foram o limite conseguido na duração da dita reconstrução… Reconstrução na ilusão daquilo que nunca devia ter sido reconstruído…
Rezava ela ao percorrer seu caminho de casa, no mês de Abril, do bendito ano de dois mil, e eis que por ironia do destino encontra o rosto de quem fugiu…
Desta vez, não usa da sua arma preferida… E ambos vivem aquilo que teria sido o começo de uma casa… Com um preambulo de mais dois anos de vida…
Durante esses dois anos, ela acaba a relação que tinha, passados uns meses…
E vivem aquilo que parecia ser aos olhos de todos, um amor proibido… Principalmente da ética e dos bons costumes…
CLR

 

13
Mai19

Longo Caminho para Casa - Onze


Longocaminhoparacasa

                 onze

 

Foi apenas um dos seus caminhos percorridos, até encontrar o caminho, o seu caminho de casa…
Um caminho destruído por descuido, por falta de comunicação, por falta de dedicação e até atenção… 
Por pensarem que têm tudo certo. 
Por se esquecerem que todos os dias, nos devemos alimentar, para crescermos... 
Por ignorarem que todos os dias, precisamos de luz…
A juventude dela e a beleza e experiência dele, conjugado com a diferença de idade, e de planos profissionais, abriu um canal entre ambos. Um canal que ambos não souberam ver e tapar… 
Um elo, que não conseguiram construir, ou reconstruir, porque até hoje, ainda desconhecem se algum dia o tiveram...
Sem forças, não conseguiram lutar contra as guerras que os envolviam.
Levantaram os braços, deixando cada um seguir o seu caminho…
Num belo dia de sol, ela, cansada, principalmente de tantas mentiras, vestira a ressaca de uma discussão presenciada pela lua cheia que raiou na noite anterior, pega nas malas e segue na direcção do seu retiro espiritual…
Estavam em finais de Julho, do ano de 1997, época de festas nas aldeias próximas do seu retiro… Como boa menina que sempre foi, resolveu chorar as mágoas a dançar num bailarico de uma povoação próxima…
Por ironia do destino, encontra uma cara que não lhe era desconhecida…. O dono dela era, aquele que viria a ser, a sua primeira lição de vida…
CLR

 

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