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A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.


17
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Seis

por Longocaminhoparacasa

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Maria acorda sobressaltada, o coração a saltar-lhe do peito. Faltava-lhe o ar, e as palavras transformadas em frases, saltavam-lhe dos olhos para a ponta dos dedos.
Senta-se à secretária, abre a página do blog, e começa a transcrever dois belíssimos poemas:

Sobre a morte?
Sobre a morte nada conheço, não sei dizer.
Mas acho que a morte é esquecimento.
E quem parte continua vivendo
nas lembranças
e nos corações de quem fica.
Augusto Branco

Morte em Vida
“Não Chore Pelos Mortos que deixam Saudades e Admiradores...
Pois Eles Viveram a Vida... E Agora Descansam ao Lado do Senhor...
O Pior é Estar vivo e esquecer-se de Viver a Vida...
Lamente por Estes...!
Rick Jones Anderson

Não havia mais nada a decidir.
Maria estava confiante, e lutava como a guerreira que sempre foi.
Calçava as luvas, e as negras eram das agulhas.
Calçava os ténis, e as dores não eram dos treinos exagerados, mas do veneno que lhe percorria o corpo.
Obrigava-se a comer. Mas de cima do seu 1,70cm, a balança não pesava mais do 50 a 55 quilos.
Passaram os meses frios, com calor, e regressam os meses quentes com frio. 
Passaram meses, ganharam-se sorrisos mas findos os quais, nada parecia florir para duplicar o sorriso a Maria.
No entanto, no céu já nascera uma estrela, que já estava dentro de si…
- Repentinamente, a roupa deixara de lhe servir, a fome parecia galopar o seu desejo de manter a linha.
Aos enjoos, Maria não dava valor, seriam fruto dos tratamentos, as dores de cabeça, não passavam do fruto das habituais enxaquecas… 
Ou afinal, não…
Afinal havia uma estrela a nascer dentro de si, mas Maria não sabia.

CLR

 

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publicado às 22:26

17
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Cinco

por Longocaminhoparacasa

35

Aquele caminho não foi longo, mas foi demasiado doloroso para ser esquecido.
Mas pior do que isso, foi a ausência. A ignorância, e a omissão.
O viver constantemente no teatro. Viver no reino da representação. Representação de sorrisos, de alegrias, de forças.
Mas havia pior…
Tal como a lua desaparece ao raiar do dia, também ela se escondeu nos raios de sol…
O desaparecimento do anjo odorava a mau pressagio…
Maria deixou de ver o sol, de sentir os seus raios a queimar-lhe o corpo e a derreter-lhe a alma…
Hoje, Maria olha para o Céu, e nas estrelas que lhe molham o rosto recorda, o sol, o anjo e as suas estrelinhas….
Do rosto escorrem-lhe lágrimas com o sal da tristeza e o açúcar da paz… Daquela paz de quem está bem com a sua consciência…
Maria parece que finalmente reencontrara o caminho seguro que a levara até casa.
Sorria escondendo a tristeza e a falta de alegria que foi afogando na ideia de construção da família, que tanto desejara… E que repentinamente se transforma no projecto prioritário e urgente.
Aos poucos foi reconstruindo os cacos do amor que se tinha apagado…
Abriu o coração e deixou-o amar.
Agora, Maria vive um dia de cada vez.
Percebendo que na vida há muitas injustiças e sofrer faz parte dela, como sofre quando pensa nas estrelas que tem no céu…
Os meses foram passando, e as mágoas foram secando. O sorriso foi abrindo até poder sentir a primavera.
O brilho das flores, o calor do sol, o amor do mar e o calor da família que tanto sonhara ter.
Todos os meses Maria rezava a Deus.
Pedia paz e amor, para todos e ao seu anjo, pedia ajuda para superar aquela fase tão difícil e dolorosa.
O pedido era condicionando à concessão do desejo do bisneto que tanto desejavam, só assim a vida fazia sentido para Maria. Só assim aquela luta fazia sentido.
De que servia a vida, se não fosse para dar frutos, e deixar sementes?
Maria não queria deixar mais nada se não o amor. E haveria mais legado do que o amor dos filhos? Conceber, ver nascer, crescer, e amar?
Naquele momento, Maria pensava muito na Morte, no que seria, como seria.
Será que apenas o corpo tem fim?
De repente vem-lhe à lembrança o seu anjo, pensa… Sorriu.....Os anjos estão juntinhos, e de repente dissipavam-se todas as dúvidas, e, sim, apenas o corpo se vai, porque o amor, a lembrança, as recordações o sorriso, esse fica-nos sempre no coração.
Para Maria a luta só fazia sentido se fosse para construir algo, caso contrario, queria sentir novamente o colinho do seu anjo. E o aperto de bochechas do seu avó….
Só assim fazia sentido, por isso tomou a decisão mais difícil da sua morte.
Lutar!
 
CLR

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publicado às 16:04


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