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A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.


14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezoito

por Longocaminhoparacasa

0118-COLLAGE

LONGO CAMINHO PARA CASA - DEZOITO
Maria seguiu o seu caminho…
Os pássaros cantavam e também alí naquele quarto simples e frio de luxos e conforto, lhe faziam visitas de cortesia e lhe cantavam à janela encantando-lhe o sorriso.
À noite, Maria falava com as estrelas que estranhamente se deixavam ver no escuro daquela cidade da capital.
Havia uma que todas as noites lhe piscava num brilho cegantemente protector e com cheiro a um grau duplamente maternal, libertando um aroma de amor puro, cego e cúmplice. Ofertando-lhe assim a segurança de que Maria tanto necessitava.
Enquanto a admirava e lhe confidenciava as suas vivências, Maria abastecia o seu coração de amor, alimentado-se com a força, protecção, confiança e determinação necessárias a mais um dia que se adivinhava romper.
Nas noites em que a lua o permitia, Maria também a contemplava.
Segredava-lhe também o conteúdo do seu coração, e tudo se tornou mais normal, acostumando-se à sua realidade emocional frágil e doce.
Maria sentia-se assim mais acompanhada, 
Era como se do outro lado, ou de algum lado do mundo, Maria pudesse ver reflectida alguma compreensão e empatia.
Aquela empatia que tanto procurava no caminho até então percorrido, e que a vida teimava em não lhe mostrar na realidade. 
Admirando-a Maria sonhava que existia alguém em algum ponto do universo, com o mesmo sofrimento que o seu, com o mesmo sentimento. 
Alguém que tivesse o coração partido tal como Maria tinha, e que estivesse também ela contemplando a lua, alimentando-se do seu poder.
À noite, sentia-se assim acompanhada por a sua grande amiga e confidente Lua. 
Quando raiavam os primeiros raios, Maria saía à procura da luz, do brilho, e do calor do sol que lhe aquecia o corpo, e adoçava o coração.
Apanhou a carruagem e seguiu a viagem contando dias, semanas, meses e anos.
A próxima paragem, foi apenas mais uma das paragens do seu já longo percurso, em que bebeu da vida mais uma vez aquele doce sumo…
Mas desta vez uma seiva diferente de todas as outras.

CLR

 

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publicado às 23:05

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezassete

por Longocaminhoparacasa

01017-COLLAGE

Uma vida.
Dois percursos percorridos, dois caminhos falhados.
Duas mentiras necessariamente vividas.
A primeira a perfeita. Mas ambos a haviam deixado esmorecer-se, por conta de descuido, de imaturidade, ou mesmo de amor. Talvez, fosse isso.
Vivida a paixão, não sobreviveram ao amor, que deixaram morrer precocemente.
Ainda hoje Maria pensa na resposta. 
- Se será essa a verdade. Ou qual será a verdade?
Porque morreu? Por falta de amor, por falta de maturidade, ou por ter acabado a paixão?
Porque não lutavam os dois? Porque não lutava ele por ela? Acabou a paixão? Encontrou um novo amor? Ela não era boa o suficiente para si?
Estariam destinados apenas à amizade eterna?
Maria pensava que não era suficiente, e que as diferenças sociais que tinham e que aparentemente não tinham importancia, afinal, estavam a revelar-se fundamentais para os afastar.
Não lutaram, porque nem sequer fizeram planos. 
Viviam o dia a dia, e nunca repararam, nas flores que rodeavam a pureza do seu amor, nas gotas de chuva, nos flocos de neve, no cheiro dos malmequeres, no jardim florido que acompanhava o lar daquele amor genuino…
Talvez fosse por isso, que não repararam que as flores tinham sede, as àrvores tinham os ramos secos, e as ervas daninhas já eram mais que muitas.
Maria sentia que era melhor na amizade do que no amor. Na verdade, acho que nunca acreditou no amor genuine e puro. Naquele amor verdadeiro, sem interesses, sem carne, tolerante, cumplice, sentido!
Com Maria, talvez por fruto da idade, era tudo paixão, fogo, e quando as brasas se iam apagando, reinava a insegurança, e depressa desistia, e aceitava a amizade como punição. 
No amor, Maria, não era guerreira. A vida havia de lhe ensinar a se-lo noutras coisas que lhe pintaram a vida miseravelmente, mas no amor não.
Mais uma vez, voltou ao mesmo destino.
Maria sentia que nada era reciproco. Que a sintonia da paixão se tinha esvaido nas ondas e perdido no mar.
As suas lutas eram solitarias. E de nada valia procurar. Porque o que acabava por encontrar acabava sempre em nada.
E o caminho para chegar ao nada, era tão doloroso que não valia a pena a docura de algumas curvas.
Resistiu enquando pôde, mas sempre ciente de que o objectivo era atingir o NADA. Não havia cumplicidade, e a sua insegurança e o medo de falhar, não lhe permitia lutar para que o amor se instalasse confortavelmente no seu coracão.
De tal maneira que, quando deu por isso, já a neve pintava a Estrada da segunda viagem.
Mas, a segunda viagem não se revelou de todo melhor que a primeira. Diferente, mais madura, mas tal como Maria, replete de paixão, e ilusão, e claro está extremamente insegura e frágil.
Chegara ao dia em que havia de dar um rumo à segunda viagem.
Combinaram um encontro e lá foi Maria, a conduzir ate à estação onde decidiria o rumo daquele itinerário.
A neve luzia de tal forma que era nela que Maria via as luzes do caminho em que passavam as rodas conduzidas por si, até à estação ferroviária.
Chegada ao sitio, cujo nome, seria de um objecto recto em que estão bem demarcadas as medidas que ajuda a medir, objecto cujo nome partilha com aquela belissima terra.
Vigiada pelo magnifico Douro, a quem Maria segredava e desabafava os seus medos. 
Olhava as águas do rio e pensava nas suas magoas e, em como havia de lutar entre o desejo que o coração transbordava e o medo que a razão teimava em lhe adocicar a consciência do temivel fracasso que aquela viagem se adivinhava. 
Finalmente chega e encontra algumas máquinas de tracção a vapor abandonadas num terminal de linha completamente desactivado, facto que a fez pensar no preludio do lugar, no Douro, e na viagem fracassada no tempo que pressentia daquele reencontro decisivo.
Estaciona junto à estação, e lá estava a estalagem.
Simples, mas decorada do amor que se teimava em despedir deles.
Suaram, desobstruindo o desejo, a avidez lascívia de dois corpos sedentos e replectos de paixão e saudade, sem dizer uma única palavra.
Em silêncio libertaram todo o suor das lágrimas e de desejo naquela misera e oculta despedida.
Com a cabeça na almofada meticolosamente amarrada de esguelha entre os seus braços, Maria quebrou deleitada, suplicando ao silencio que permanecesse no quarto.
No grito de um toque suave, António, desvia-lhe a madeixa de cabelo despenteado que prepositadamente lhe omitia o rosto escondendo-lhe o olhar. 
Abre assim caminho para que os seus olhos e os da Maria falassem aquilo que ambos os corações temiam.
Maria já havia pressentido a existência de uma noticia que não só lhes mudaria o rumo, do nada que já tinham, mas lhes indicava o caminho do inicio de uma viagem solidária a dois.
E assim, foi. A paixão que tinham não era suficiente para ela aceitar tal noticia. Para ela era o fim!
Depois da confissão, o olhar molhado confessou o desfecho daquela relação, e ditou mais uma vez o inicio de uma amizade frustrada por amor.
No percuso até casa, o branquinho escorregava na neve, como as lágrimas gelidas que lhe escorriam no rosto.
Maria sentia um misto de raiva, de dor, de inveja. 
Sentia-se um verdadeiro trapo, rasgado, velho, inútil, e desnecessário. E culpava o seu coracão, por se deixar iludir tão facilmente, pensando que podiam construir algo melhor! Sentia-se um verdadeiro animal irracional, um asno!
Perguntava-se, como poderia ele achar que ela aceitaria tal situação? Veria ele assim nela uma mulher tão burra, tão fraca, tão carente? 
Poderia ter sido só carne o que viveram? 
Apenas sexo, e demasiado tempo livre?
Tantas perguntas Maria via escritas no vidro do carro por onde espreitava a estrada gelada que a levava até casa.
Durante toda a viagem chorou e desenhou o percurso daquela relação. Tentou perceber cada detalhe, mas sem sucesso. Até que se rendeu ao cansaço, num conformismo tipico da exautão. 
Na sua cabeça só ouvia uma voz que lhe repetia uma frase.
- Meu anjo, minha querida, não fiques assim, no fundo, já sabias, já tinhas pressentido, não há nada de novo. Levanta-te, segue em frente! E não te esqueças, nunca te arrependas do que fizeste, porque só com os erros aprendes a crescer! 
Aceita a dor, abraça-a, dá-lhe o calor do teu coração e com o teu sorriso, ainda que molhado, segue em frente. Segue em frente.
Segue em frente! Segue em frente! Segue em frente!
Estranhamente, depois de lavar a alma, e purificar a raiva, aquela música e aquele percurso até casa, tinha-lhe acalmado o coração. 
De rosto lavado e alma pronta para recomeçar e enfrentar a dor, Maria deita o corpo triste naquela cama gelada.
Rezou e aconchegando o seu coração com a promessa de ser forte o suficiente para libertar todos os dias o seu sorriso pelo menos uma vez por dia, Maria adormeceu.
- Obrigada meu anjo.
CLR

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publicado às 21:46

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Dezasseis

por Longocaminhoparacasa

                       16

O dia havia sido demasiado longo.
A noite estava escura, mas, no céu brilhavam as estrelas.
As aulas tinham terminado. Já só lhe restava o longo percurso até casa.
Conforme caminhava ao som da música dos seus passos, pensava em como estava cansada e desejava não ter de atravessar lisboa, mas que a sua casa fosse logo aí no virar da esquina.
De repente avista o amarelinho de janelas brancas que romanticamente caminhava nos seus carris.
Segura firmemente a pasta que trazia na mão esquerda, com a direita aperta a mala contra o seu corpo e pensa, vou apanhar-te numa corridinha.
Do pensamento passou à acção. E não é que apanhou mesmo?
Subiu, e enquanto ainda pensava na sorte que teve, e que talvez a noite não se revele como o dia, é acordada com a travagem brusca que o guarda-freio acaba de fazer, espetando-a directamente contra o banco lateral que por sorte se encontrava desocupado.
Olha em frente vestida do seu olhar de reprovação e … Tem uma miragem. Não é que apanhou mesmo?
Viu a maré, e lá bem no fundo, o marinheiro que a gaivota levou. Tanto sonhou contemplando o mar, tanto sorriu quando avistava um barco que navegava lá longe no mar, sentindo o coração a acenar, querendo sonhar mais, tanto fez, que, alí estava. 
Sonhou que num dia ensolarado e quente, em que estivesse no cais, a maré lhe trazia de volta o seu sorriso, tal como já lhe havia trazido naquele velhinho electrico, e, alí estava ele de novo.
Num electrico mais novo, novamente aquele mesmo sorriso irritantemente bonito, e apaixonante.
Viu tantas mares que lhe perdeu a conta, mas não foi no caís que o reencontrou. Foi naquele que se tornou o seu ponto de encontro na capital! 
A alcoviteira amarelinha que navegava em longos carris, passeando-se pela capital, espalhando cupidos, unindo corações oriundos dos mares do norte.
CLR

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publicado às 21:39

14
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quinze

por Longocaminhoparacasa

          015

Começara assim mais uma etapa. Mais um percurso de luto, de dor, e ilusão.
A ilusão do teste aprovado de quem não aprendeu a lição…
Ela seguiu o seu caminho. Desejando esquecer, não voltar a ver, a ter, a sequer encontrar ou se cruzar. Desejando acima de tudo esquecer e sobreviver para um dia poder viver.
O tempo foi passando… As flores foram crescendo, todas as mares foi sentindo, até que a neve voltou a cair.
Parece que via em cada maré, o marinheiro que a gaivota levou. Sonhava contemplando o mar, sorria quando avistava um barco que navegava lá longe no mar, sentia o coração a acenar, querendo sonhar mais.
Sonhava que num dia ensolarado e quente, em que estivesse no cais, a maré lhe trazia de volta o seu sorriso.
Viu tantas mares que lhe perdeu a conta.
Deixou de contar as gotas de chuva que limpou das janelas em que via o passado a sorrir-lhe.
Sentiu a neve fria. E nunca mais fez o boneco de neve…
Na cidade, o eléctrico corria nos carris, em que via a luz do rio reflectida na janela. Que linda capital, que linda esta cidade, de encontros e desencontros.. Seria essa a sua sorte? Esse era o seu segredo.
O seu desejo, e o seu segredo!
Em cada rosto via uma imagem. Um ramalhete de sentimentos, quando sonhava ver nuns olhos, aqueles que nunca esquecera.
O sorriso. Não apenas um sorriso, mas aquele que era capaz de acender o seu!
No ano de dois mil e dois, seguiu, até à próxima paragem….
E foi aí, naquele bendito eléctrico, nessa paragem, que fez a sua próxima paragem.
Foi apenas mais uma, de reencontros, em que ela voltou a beber da vida o sumo do sorriso em que constatou que nada se passou, que nada aprendeu.
Sentiu que nada viveu, não havia vivido. Nada! Nada que lhe pudesse ter ensinado a fórmula da protecção… Aquele olhar, aquele sorriso…

CLR

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publicado às 10:26


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