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Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

Longo Caminho para casa

A sina, o caminho, ou simplesmente uma história. Um caminho igual a tantos outros, ou, uma história de vida, semelhante a tantas outras vidas. Uma história vivida, ou apenas fruto da minha imaginação.

06
Out19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Sete


Longocaminhoparacasa


LONGO CAMINHO PARA CASA – QUARENTA E SETE



Na dúvida que tenhas sempre a sabedoria de descobrir a resposta certa, e nela encontrarás caminho para casa…



Alguma coisa não está bem!



Não vou deixar que te matem, nem a ti, nem ao meu sonho, e à minha fé! Já te amo, desde o momento que soube que existias dentro de mim. Não vou desistir de ti, meu amor. Não vou!



Ainda não eram sete da manhã já Maria estava a tomar o pequeno almoço.



- Isso é tudo fome, ou é vontade de ir trabalhar, amor? Pergunta-lhe Luis.



- Um pouco de tudo isso… E ainda muito mais…- Responde-lhe Maria, enquanto se levanta e leva o copo à boca para acabar de beber o ultimo gole de sumo de laranja.



Maria, pega na mala e nas chaves do carro, uma festinha ao Rex, dá um beijo a Luis e sai porta fora, deixando um até logo!



O corpo estava lá, mas a cabeça e o coração não.



Maria sempre teve a fé como espada. E mais uma vez tinha uma espécie de pressentimento que se revelava numa acção de indiferença em relação aquilo que lhe havia sido dito pela obstetra.



Parecia que estava a pairar nas nuvens, mas de uma forma segura e confiante. E foi desta forma que deixou o trabalho todo encaminhado e orientado, dando todas as instruções necessárias àquilo que se havia de reconhecer ser apenas uma breve ausência do escritório.



E assim se passou rapidamente um dia de escritório.



De repente tocou o telemóvel, e era Luis, também ele perdido e a tentar perceber onde se havia de encontrar com Maria, para irem juntos para a clinica.

13
Jun19

LONGO CAMINHO PARA CASA – QUARENTA E SEIS


Longocaminhoparacasa

46

E estava ali mais que provado a existência de algo tão especial e maravilhoso, não se podia pedir mais nenhum sinal...
O amor respondeu a Maria, quer do céu, quer dentro de si.
Maria, na sua caminhada encontrara vários refúgios.
Ora no desporto, quer através do running, ou no jogging, ou por e simplesmente numa manhã ou tarde bem passadas no ginásio, brincando de luvas calçadas.
Num, com objetivos bem traçados, como quem quer melhorar as suas marcas e fazer mais provas, como quem se coloca a si mesmo constantemente à prova saboreando ou roçando os limites do seu corpo. E em cada uma das provas, Maria tentava sempre um bocadinho mais… E mais.. E mais… Alcançava mais uns quilómetros do seu percurso até casa… O prazer de conseguir sempre mais um passo que fosse, era motivo para festejar vitória! Desde os dez quilómetros à maratona, Maria treinava com um método definido, cumprindo um plano de treino específico para atingir os resultados que estipulara inicialmente. Encontrar o seu caminho de casa… E isso fazia-a sentir-se muitíssimo feliz! Realizada, sorridente… De bem com a vida!
Depois, Maria passou ao jogging, a algo mais rotineiro e menos exigente. Consistia em correr num ritmo menos acelerado, sem pensar em tempos ou distâncias por questão de stress ou até de saúde. Era um dos escapes preferidos de Maria. Em cada passo, Maria melhorava e ajustava o corpo a um ritmo muito seu, muito subjectivo, e muito confortável. E era nesse ritmo que Maria afogava todos os seus problemas e onde pescava todas as soluções, repescando e saboreando a doçura de um sorriso novo e completamente recuperado! Recuperado em cada gota de suor libertado pelo seu corpo. Maria renovava-se assim… E sentia-se tão feliz…
No fundo, o único recorde que queria atingir era o de se sentir o mais leve possível… Não no peso do corpo, que já era suficientemente magro. Mas da sua mente…E isso passava muito por desfrutar da vista e de toda a envolvente. Por isso Maria adorava ir correr à praia, ou no meio do campo, onde o cheiro, as cores, a luz, resumidamente a paisagem eram os elementos fundamentais! Eram a sobremesa nesta sua deliciosa refeição!
No entanto, no seu novo estado de graça, e uma vez que as coisas tinham corrido mal da ultima vez, Maria estava impedida de praticar qualquer tipo de desporto. Tinha como carta de recomendação descanso absoluto, pelo que o estado dos seus nervos, o seu nível de stress andava acima do vermelho!
E depois de uma noticia daquelas… Como havia Maria de digerir tal ?
Maria lembrou-se de outro escape que entretanto arranjou. E talvez fosse por aí o outro caminho…
A escrita!
Maria trocou as lágrimas de suor vertidas nas corridas do jogging ou do running, pelas lágrimas de letras! E começou assim a esvaziar o coração, construindo e descobrindo caminhos e percursos através da escrita que vertia nos seus blogs.
Escrevia para se compreender, ou para perceber o mundo que a rodeava. Escrevia por rebeldia! Escrevia para praticar o humor nas feridas que sentia tocarem-lhe a vida a quem chamava corpo.
Maria escrevia, libertando alegrias e magoas, encontrando assim espaço no seu coração para sorrir cada vez mais!
Para libertar o sorriso que por vezes se prendia naquelas malfadadas magoas…
Por vezes sentia que escrevia para não enlouquecer, no meio de tanta loucura, que se transformava a sua vida!
Maria resolve então sentar-se à secretaria, ligar o computador, abrir a pagina do blog e começou a escrever:
 
Hoje acordei a pensar nas mudanças, em tudo o que perdi ultimamente e em tudo o que ganhei.... E não consigo desistir!
Aprendi! Que não posso desistir!
Na vida nem tudo o que nos cai é assim tão mau.... Nem tudo o que se perde é mau. Mas eu sinto que não te perdi. Que não te vou perder!
Deus tira, Deus arranja espaço .... Só temos de o ver. De o sentir. De o deixar entrar.... De lhe abrir a porta.
Aprendi a aceitar e a usar da melhor maneira, ou seja sempre com um sorriso. Mas a não desistir NUNCA! E a deixar sair o sorriso, ainda que seja molhado, porque descobri, que é ele que me dá força!
Mesmo quando ele teima em se esconder, mesmo quando os ténis já não resolvem tudo mesmo quando o suor, não me lava a alma, abrir os lábios e deixar entrar o sorriso, por vezes é a solução.
Resumo, nem tudo é mau! Nem tudo pode ser mau... Sinto-o... Não sei explicar, mas sinto que devo confiar, e ter fé! Não vou desistir de ti meu bebé. Não vou desistir! A mãe promete-te! Ela tem de estar errada! Não faz sentido! Alguma coisa não está bem! E a mãe vai descobrir o que é, prometo-te ! Não vou deixar que te matem, nem a ti, nem ao meu sonho, e à minha fé! Já te amo, desde o momento que soube que existias dentro de mim. Não vou desistir de ti, meu amor. Não vou!
CLR
 
26
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Cinco


Longocaminhoparacasa

45-COLLAGE

 
No céu, a noticia já era conhecida mas faltava partilhar a boa noticia pelas terras do seu vale encantado, no solo do seu retiro.
Retiro que remonta à época em que de Portugal nem o nome existia e o seu território, tal como hoje é constituído, fazia parte integrante da Península Ibérica.
Portugal não existia, mas este vale já existia, neste pequeno trato de terra surgido na Idade Média, o concelho de Tarouca.
Os Lusitanos, foram provavelmente os seus primeiros habitantes. Alguns historiadores consideram-nos já o resultado da fusão de Iberos e Celtas, cujas migrações se perdem nestas terras nas noites doutros tempos.
São testemunhas o castro de Mondim e de Castro Rei, onde nele foram encontrados vestígios dos Lusitanos, tais como casas, mós, objectos de cerâmica, machados de pedra polida.
Lamego foi um lugar onde os Romanos estabeleceram sólido domínio. Ora sendo tão perto de Tarouca e sendo suas terras tão férteis, é lógico que para aqui fossem atraídos, pois ainda hoje existem vestígios de estradas romanas.
Da permanência dos Árabes chegou até aos nossos dias a lenda do Penedo Encavalado, do Penedo da Meada e as que se referem à origem de povos, como Gouviães e Eira Queimada.
Em Tarouca Igreja Matriz de Tarouca, houve um castelo árabe que, em 1063, D. Fernando Magno, rei de Castela, veio submeter, depois de conquistar Lamego.
No onomástico do concelho há palavras árabes, como Almofala e Alcácima (Alcáçova), este ultimo é um morro onde existiu o castelo, na vila de Tarouca.
O Conde D. Henrique e seu filho Afonso I entregaram-no, com outras terras limítrofes, aos fidalgos, ricos homens e donos da sua côrte.
A Egas Moniz coube Salzedas (Algeriz) Gouviães; Tarouca, a Sancho Nunes; Dalvares, a Eldra Martins; e outras terras a Paio Cortez, D. Paio Viegas, Estevam Guilherme e Martins Passial.
Estes, com colonos do Minho, reconstruíram as povoações arrasadas em lutas de raça. Entretanto fundaram-se os dois mosteiros de S. João e Salzedas.
É provável que a fundação de Tarouca remonte ao último quartel do século XIII.
Mais tarde também se chamou Castro Rey. Com este nome recebeu foral de D. Afonso III a 11 de Dezembro de 1272. A antiga povoação de Tarouca foi quase sempre cabeça de concelho; mudado o seu nome, este não subsistiu por força da tradição. O primitivo concelho de Tarouca limitou-se quase só à freguesia da sede, com seus lugares; mas esta era muito extensa e contava muitas povoações.
Em 1898, o Concelho de Tarouca foi restaurado, tendo-lhe sido anexada a vila de Mondim com parte das suas antigas freguesias, ficando, até aos nossos dias composto de 10 freguesias:
Tarouca, Dalvares, Ucanha, Gouviães, Salzedas, Vila Chã da Beira, Granja Nova, Mondim da Beira, S. João de Tarouca e Varzea da Serra.
Sobreviveram a beleza das suas paisagens e numerosos vestígios do seu passado glorioso, tais como igrejas monumentais, seu valioso recheio em obras de arte, ruínas de ricos e importantes mosteiros, pontes medievais entre outros documentos históricos que atestam a sua importância através dos tempos desde antes da fundação da Nacionalidade.
Possuidora de todo este rico património, foi entregue na Assembleia da República uma proposta de subida à categoria de cidade. Posta a votação na Assembleia da República no dia 9 de Dezembro de 2004, foi aprovada pela maioria dos deputados passando assim à categoria de cidade. (Bibliografia: Monografia do Concelho de Tarouca do Ab. Vasco Moreira)
Tal vale encantado.
A verdade é que nem sempre é preciso atravessar oceanos para se deixar encantar.
Era a fuga preferida de Maria. Quando algo não estava bem, quando era preciso comemorar, era naquele vale que ela se ia refugiar.
Lá aproveitava o amanhecer, ainda sem demasiado calor para passear pelos caminhos perfumados com casas de pedra desenhadas em amplas janelas e varandas debruçadas sobre montanhas que crescem de vales silenciosos, imensa e deliciosamente vivos!
Onde tudo é vivo, tudo é calmo, tudo existe e é saboreado com complacência e parcimónia.
Os sabugueiros colhidos há pouco perfazem um rasgo de vermelho na correnteza das estradas.
O tempo soa nas horas do sinos das igrejas.
Algo alvoroça os cães da vizinhança. Um ténue nevoeiro impõe-se sobre o vale: parece um fumo parado que faz carecer de real os montes circundantes, numa mudez imóvel.
A Torre da Ucanha, a praia fluvial de Mondim da Beira, o Mosteiro Tarouca, o altivo mosteiro cisterciense de Salzedas, verdadeiras jóias do nosso património.
Respiram-se percursos que cambaleiam nas franjas dos tempos de uma vivência outrora, quais paredes sustentadas pela inércia e pelo conformismo de uma desilusão antiga.
Lembra-me um outro lugar, onde um ancião cego escondia recordações escritas nas fendas das paredes...
À saída do mosteiro e um pouco mais à frente, a judiaria, em ruínas mas de atmosfera recôndita, convida a um deambular que, apesar de curto, nos remete para uma época medieval, onde as construções se interligam através de invulgares passadiços desta aldeia vinhateira.
Sentem-se os passos da demora na escuridão da pedra, flutuando no espaço envelhecido, como que dores inúteis da decrepitude.
Luis e Maria, chegaram ainda antes do almoço. Podiam perfeitamente ter parado no caminho para comer numa qualquer estalagem à beira da estrada. Mas a ansiedade era tanta como a pressa de chegar.
Almoçaram e Maria lança a bomba como sobremesa.
Nos olhos do pai, Maria pôde ver um espelho de lagrimas de alegria.
- Então quer dizer que vou ser avô?
- A mãe deixou cair as palavras num silencio de um sorriso demasiado alegre para ser interrompido.
Aquele vale, nunca tinha sido sentido por Maria com tanto vento de alegria e felicidade.
Apreciaram um final de um dia estrondoso: uma leve sombra calma do anoitecer deu lugar a um céu negro profundo, longínquo e irrevogável.
À ceia, os reposteiros pesados e floridos convidaram à inércia e ao torpor, depois de um almoço em que se cozinhou e degustou o repasto regado a longas conversas até que a penumbra venceu o cansaço, e Maria se sem demoras, até sentir o amanhecer.
Domingo de manhã, sentada na beira da cama de soleira mas de casal, Maria ouvia o chilrear dos pássaros e o coro dos galos e gansos, que afincadamente entoa um cântico harmonioso.
Sessão interrompida pelo toque de telemóvel de Maria.
- Sim?
Sim sou. Mas como ? Probabilidade? Positivo?
Amanhã? Não não posso não estou em Lisboa, responde Maria.
Mas na ecografia estava tudo bem! O Dr Amadeu, disse que estava tudo muitíssimo bem!
Não, amanhã vou para Lisboa, mas vou trabalhar. Vou ao escritório deixar tudo preparado, e depois vou aí à clinica buscar o resultado, e depois logo marcamos.
Maria tentou levantar-se, mas as pernas não deixavam.
De repente, nada se mexia, apenas um ou outro insecto zumbia no remanso daquela paisagem que se transformou negra .
Molhada pelas lagrimas, arrasta-se até à porta e de cima das escadas vê o pai, a mãe, e Luis.
Desata num choro que não a deixa contar.
Maria, é acalmada pelo pai que lhe diz:
- Calma, isso não é assim. Não pode ser assim! Um não diz uma coisa e outro outra. Alguma coisa não está ai bem! Eu que nao percebo nada mas, calma….
- Maria retém o momento que lhe deu uma confiança inexplicável que alguma coisa não estava bem…
- O tempo escorre sem pressas, ante a partida irrevogável.
 
CLR
22
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Quatro


Longocaminhoparacasa

44

            O cansaço era tanto que não lhe foi nada dificil adormecer.

            Estava numa praia, linda! E ouvia-se uma música no ar.

Maria desvia a cabeça para conseguir ouvir melhor a letra da melodia que docemente pintava aquele cenário. E rezava assim uma voz doce_

 

Guiada por si

Movida pela fé

Estou aqui

 

Maria percebe a mensagem, e acorda num sorriso aberto de luz.

Levanta-se e rapidamente procura o portatil para escrever o que o sonho lhe tinha colado na mente.

Abre a página do word e escreve:

 

Guiada por si

Movida pela fé

Estou aqui

 

Tenho-a sempre comigo

Mas, tenho saudades de si...

Tenho-a sempre comigo....

Mas, tenho saudades de si.

 

Sorrio mas também choro e não minto

Quando digo que muito honrada me sinto

Por ter conhecido da sua ciência

da sua experiência de vida.

 

Sou feliz por dizer

Que o amor que me luz no rosto,

Foi de certo traçado pelo amor que me doou.

 

Amor do sorriso que me ensinou

Sorriso por inteiro, amor de amor, de gente sem frente.

O amor sem barreiras

O amor que não mente...

O amor sem limites

O amor para a vida inteira

O amor para além da linha da sua vida...

 

Sem confins sufocados nem alfinetes.

O mesmo amor que cuido todos os dias legar

Tal como fez comigo...

 

Hoje não estou triste...

Sim, hoje, vou sorrir como me ensinou

Mesmo dilacerada de nostalgia

Vou sorrir...

Mas sorrio de olhos lavados...

 

Lavados pela saudade de a ter à minha frente...

De rever as linhas vincadas de tempo no seu rosto,

O sorriso sincero, desinteressado

E mais puro que conheci...

 

Sorrio de olho lavado

pela saudade de sentir aquele aconchego

O calor do seu abraço sempre demasiado apertado...

 

O regaço, os mimos, os doces

O amor afetuoso daquilo que é tão nosso...

 

O suficiente para ser único

O verdadeiro amor.

Digno da avó que não o sendo foi...

Única.

E por isso sempre,

Sempre

Comigo esteve e estará

E para sempre será

O meu anjo da guarda.

 

Até qualquer dia,

E continue a cuidar de mim,

Continue a cuidar de nós...

Beijo de saudades...

 

Sim já fiz fé, mas

vou comer uma carcaça com manteiga e açúcar amarelo

pingada com as lágrimas de saudade da melhor avó que conheci.

 

Porque para mim não partiu

Estará sempre comigo

 

Maria percebe muitissimo bem a mensagem, depressa pensa que tem de partilhar esta sua experiência.

Maria tinha um blog. Mas não era aquele onde havia de publicar. Então resolve criar um só para escrever esta sua experiência. E deu-lhe o nome de “ Anjo Meu”.

 

CLR

21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Três


Longocaminhoparacasa

43

Maria adorava o seu refúgio, e nesta fase tão repleta de felicidade queria ir partilha-la com os pais e a família mais próxima.
O seu anjo, tinha voltado a desaparecer...
Mas, desta vez, Maria sentia paz. Não sentia aflição, medo... Sentia que tinha a força que precisava dentro de si, e que estava tudo bem. 
Sentia-se feliz, protegida, e que estava tu
do bem, no céu, e na terra.
Pediu a Filipa que lhe preparasse as roupas e a casa, porque se iriam ausentar durante o fim de semana grande que se aproximava.
Chegada do escritório, Maria pega na trela do Rex, e sorri ao vê-lo aos saltos, como se tivesse molas nas patas.
Vai a sair e ouve o elevador a trabalhar, estava a subir e parou no andar de Maria.
No ar pairava um cheirinho maravilhoso a pudim, acabadinho de fazer, tão maravilhoso que Maria quase lhe sentia o paladar.
Assim que se abre a porta, a vizinha do andar de baixo, a D. Rosa, num esticar de braço passa-lhe para a mão o maravilhoso amora de pudim regado com um excelente sorriso. 
- Aqui tem Maria, um miminho para si. É para comemorar!- disse Rosa
- Oh vizinha, obrigada, muito obrigada – disse Maria com sorriso em voz sumida de tão emocionada que ficou.
Rosa volta a vestir o seu melhor sorriso e diz:
- A avozinha, ia adorar entrega-lo pessoalmente, mas encomendou-me a mim o serviço menina.
Ela está muito contente. Está Radiante!- disse Rosa, ao mesmo tempo que fecha a porta do elevador.
Maria ficou branca como a tinta que revestia as paredes. Subitamente sentiu uma tontura, e numa névoa avista a imagem do Rex transformar-se numa nuvem de rosto conhecido que num salto superior à sua altura, se espavoriu pelo ar.
Filipa, é alertada pelo som do ganido de aflição do Rex, e abre a porta, mesmo a tempo de segurar Maria.
- Maria, que se passa, sente-se bem? Oh valha-nos Deus – lamenta Filipa em tom de aflição, enquanto ampara Maria, para que esta não caísse.
- Eu estou bem, diz Maria vestindo o seu sorriso em modo nervoso
- Já passou, foi só uma Tontura, diz Maria tentando descansar Filipa.
Entretanto chega Luis que fica aflito com o aparato que encontra, à porta.
- Que se passa amor? 
- Nada, está tudo bem, foi só uma tontura própria do meu estado. Ou então foi porque não me apetece ir passear o Rex e apetece-me mais provar esta delicia que a D Rosa me trouxe agora mesmo.
- Numa gargalhada geral, o clima é amenizado.
- Filipa oferece-se para levar o Rex a passear, enquanto Luis acompanha Maria a casa, para saborearem o pudim encomendado pelo anjo a Rosa.
Completamente deliciada, de brilho nos olhos, Maria leva a colher à boca e lentamente sente o paladar daquilo que lhe era tão familiar.
Repentinamente, é acordada do seu estado de êxtase quando sente com um valente esticão dentro da barriga. 
Arregala os olhos, em direcção à barriga, e imediatamente levanta a cabeça à procura do olhar de Luis que de sorriso aberto acabara de assistir à cena mais maravilhosa que alguém pode querer assistir naquele momento.
Acaricia a barriga de Maria, e sente com Maria, o melhor agradecimento e o maior milagre que a natureza lhes podia dar. Sentem o seu amor a crescer, e a interagir com eles.
Era oficial, no céu e na terra, a noticia já era conhecida e estava alí mais que provado a existência de algo tão especial e maravilhoso, não se podia pedir mais nenhum sinal...
O amor respondeu a Maria, quer do céu, quer dentro de si.
CLR
 
21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Dois


Longocaminhoparacasa

42

Ela, 

Bom, para ela havia sempre aquela coisa boa e bonita da serendipidade, do desejo imensurável de sorver da vida tudo de bom o que ela tem para lhe conceder. 
Luis apesar de não frequentar estádios de futebol, nem pistas de atletismo, representava para Maria o calor do sol.
E, havia na vida de Maria uma espécie de Sol. 
Um calor!
Aquela estrela que ela colocava no seu céu, todos os dias.
A relação de Maria com Luis, havia levado um abanão, mas, com ele reconstruíram os alicerces, e aproveitaram o calor do sol, para os guiar até casa.
E assim Deus, resolveu colar-lhe novamente uma semente forte e segura, resistente e lutadora, que lhes permitiu cumprir o prometido e festejar o desejo que tanto ansiavam.
Mas, desta vez Maria, queria certificar-se que fazia tudo certo, que não era sua a culpa do que havia acontecido, mas fruto da natureza, da mãe natureza que dizem ser sábia.
Acompanhados pela nova médica escolhida, Maria e Luis decidem fazer o Rastreio combinado precoce, que ocorre em duas fases.
Numa primeira fase, em que é feita uma colheita de sangue entre as 9 e as 12 semanas, combinado com um rastreio ecográfico, uma ecografia que é feita entre as 11 e as 13 semanas. 
E o Rastreio pré-natal de segundo trimestre, que consiste em mais uma colheita de sangue realizada entre as 14 e as 22 semanas para análise bioquímica de Alfafetoproteína (AFP) e Gonadotrofina Coriónica Humana livre (free β-hCG). 
Foi-lhes explicado que este rastreio de 2º trimestre detetaria mais de 98% dos bebés com anencefalia, 90% dos casos de espinha bífida e 80% dos casos de Síndrome de Down e trissomia 18.
Foi-lhes apresentado e rigorosamente “vendido” como o maior avanço na área dos testes Pré-Natais não invasivos, para o despiste das três principais Trissomias (T21, 18, 13) e aneuploidias relacionadas aos cromossomas sexuais (X e Y). 
Permitia a identificação das grávidas que têm um risco aumentado que o seu bebé apresente uma anomalia congénita.
Maria e Luis estavam cientes que o Rastreio Bioquímico Pré-Natal não era um exame de diagnóstico, isto é, dá-lhes-ia apenas a probabilidade de terem um bebé com problemas graves de saúde 
O resultado desse teste ser-lhes-ia apresentado como uma mera probabilidade que era calculada com a conjugação, informática dos parâmetros pessoais de Maria, e os resultados dos parâmetros bioquímicos determinados no sangue, e ainda os parâmetros fetais obtidos por ecografia. 
Tanto na primeira colheita, como na segunda, num sábado de manhã, Maria e Luis, que sempre fez questão de a acompanhar em todas as consultas e exames, dirigiram-se a um laboratório de reconhecido mérito na area destes testes e de analises clinicas
Foi-lhes entregue umas folhas de papel A4, onde deviam preencher vários elementos pessoais de Maria, que eram necessários à determinação do tal risco! Nomeadamente, a data de nascimento, o peso, os hábitos tabágicos/ Diabetes, a Etnia, se era Gravidez resultante ou não de fecundação in vitro (FIV), se haviam Filhos anteriores com Síndrome de Down, etc.
Preencheram a ficha, Maria fez a colheita de sangue necessário e foram-se embora à procura de um pequeno, grande almoço.
A ecografia foi realizada por um conceituado médico da área, que Maria já conhecia há alguns anos, e no qual ambos tinham plena confiança.
CLR

21
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta e Um


Longocaminhoparacasa

                                          trpolice (1) 

 

Ela...
O caminho, o percurso, a estrada, havia de ser sempre escolhido, sentido, desenhado por si.
Maria adorava desenhar, pintar, correr, escrever, sentir a natureza a praia, o campo, o rio, as flores, os cheiros tudo lhe deixava marcas, tudo lhe trazia lembranças, tudo fazia parte de si.
Pintar, era outro dos seus passatempos preferidos. Outro escape a juntar às corridas, ao exercício, à escrita, a pintura.
Quando não havia mais gavetas para arrumar, Maria desenhava e pegava numa tela, nuns pincéis e algumas tintas e escrevia na tela o que lhe ia na mente.
Arrumava as gavetas, dava uso aos ténis, coloria telas, escrevia blogs, e preenchia as folhas vazias do seu diário com o mapa do caminho por si sentido e percorrido.
Maria pensava que mesmo que nalgum dia se perdesse, por ter atravessado tantos caminhos cruzados, nunca se iria arrepender do seu passado.
Olhava para trás e via várias linhas, umas mais marcantes do que outras mas nenhuma havia sido insignificante. Todas tiveram o seu propósito. Todas elas importantes!
Maria já havia gostado bastante de futebol. Quando andava no secundário, um dos seus passatempos preferidos chegou a ser ir com algumas colegas ver os treinos de um dos grandes clubes da Segunda Circular. Por e simplesmente o Clube do seu anjo.
E como era lindo ver aquele casal de velhotes, amorosos, a transbordar felicidade e amor de mão dada nas bancadas, devidamente trajados à altura a assistir a um dos seus programas preferidos! Um jogo do seu SCP!
Só a imagem já cheira a amor. Casal mais unido, mais puro de maior cumplicidade, de tudo o que se pode imaginar e querer!
Olhar e ver aquilo é sentir, “só eu sei, porque queria muito encontrar aquele caminho para mim”, pensava Maria, a ver os avós de mãos dadas, completamente apaixonados, a trocarem mimos, nos seus passeios por Lisboa.
Maria sorria, quando ouvia a avó a cantarolar, de entre outras canções, a do hino do Sporting. O Clube que lhe enchia o coração de pulos, e lhe fazia subir a tensão, deixando-a ao rubro a assistir a qualquer partida, quanto mais quando do alto dos seus mais de 90 anos, ia com o seu amor, amado, amante, namorado, marido, amigo, companheiro da e para vida, namorar para o estádio do seu clube, não havia coração que aguentasse.
Nem o de Maria que se vertia em lágrimas de alegria e emoção ao vê-los...
Eram o exemplo mais querido! Aquele caminho que Maria queria encontrar e seguir!
Já estavam as estrelas no céu, e com esse pano de fundo, Maria decidiu aceitar por algumas vezes ir aos estádios, na tentativa de atingir aquele clímax que se habituara a assistir.
Numa das vezes foi a convite do Gabriel, bancada VIP, que Maria aceitou não por ser o seu Clube mas por ser o Clube dos seus anjos. Talvez assim o seu sonho tivesse mais perto de se realizar, pensou Maria.
Uma aventura bastante engraçada. Digamos que, nunca viu tanto VIP a cantarolar tanto palavrão em tão pouco metro quadrado!
Maria delirou e sorriu! Gabriel como sempre o cavalheiro, apenas preocupado com a luz do telemóvel de Maria que não se apagava nem por nada!
É melhor atenderes, sugere Gabriel, com um sorriso malandro, deixando escapar o comentário “Eu também ficava em stress se soubesse que a minha namorada se estava a divertir tanto, e com um sorriso tão bonito como está, e....se ela não me atendesse o telemóvel!
- Vá não sejas mauzinho, responde Maria!
Estou assim com um sorriso tão bonito?
- Queres mesmo que te responda? Pergunta Gabriel.
Aquela aventura tivera a sua graça, como todas as que passavam juntos.
Acabou com um jantar na Avenida da Liberdade, e uma série de gargalhadas, quando deixou Maria perto do seu carro e do arrumador enfurecido, que lhe riscava o carro.
Maria era mulher de luvas, e não deu duas gargalhadas, saiu do carro sem se despedir e vai direita ao alvo, deixando Gabriel completamente boquiaberto e desprevenido.
Valeu-lhes Garry e a fuga do arrumador perante a genica de Maria, completamente descontrolada de fúria.
Garry! Lá estava ele de novo!

Noutro dia, Maria visitou a catedral, com o seu querido Manu, vindo do reino dos Algarves, com direito a cachecol e tudo! Esse sim, teve direito a sonhar. Viu as estrelas a brilhar no céu.
Festejos, porque o glorioso também ganhou, cada vez que Maria ia ao estádio, o seu clube tanto o do coração, como o de empréstimo, ganhavam sempre!
Naquele dia até ganharam uma corridinha de fuga entre tamanha confusão de claques, policias, e mal feitores como os de Maria, Manu e os amigos deste!
Não fosse Maria corredora, não estivesse habituada a correr, não se cruzara com aquele sonho, de aroma forte e doce, que a seguiu até ao beco.
Maria encetou a fuga e segundos depois, sentiu que era perseguida. O seu coração saltava de medo, e na sua mente só pensava nas nódoas que iria ter, ou na visita da esquadra desta vez sem toga. O que lhe pairou na mente deu-lhe mais força para correr ainda mais, mas as forças estavam a esgotar-se e a multidão, transformou-se em ainda mais confusão.
De repente sentiu um puxão no braço que a arrastou para uma esquina de um prédio.
Maria primeiro, cerrou os olhos, depois, sentiu um aroma familiar, e num sussurro apertado num abraço sentiu e ouviu um tem calma, fica aqui amor. Fica aqui.
Maria mal o conseguiu reconhecer, com aquele fato, mas aquele cheiro, aquele aperto, aquele abraço, aquele beijo na testa e aquela voz... Era António! Maria não conseguiu dizer uma palavra.
Antonio levantou-se e ordenou aos camaradas, que seguissem em frente.
- Vieste sozinha? Perguntou António
- Não, responde Maria, ainda a tremer.
- Então e o parvalhão do gajo que te trouxe está onde? Pergunta Antonio
- Maria levanta o olhar e vê Manu à sua procura do outro lado da estrada, e acena com a cabeça.
- António, dirige-se a Manu chama-o.
Manu identifica-se, e António irritadíssimo ordena-lhe:
- Bem, leva-a daqui em segurança se fazes favor, achas que és capaz?
Maria ficou ali, sentada no chão ainda por um bocado, a sentir o corpo a tremer, até que Manu lhe dá a mão e a ajuda a levantar.
Acompanha-a até ao metro e onde duas linhas se cruzam, cada um seguiu o seu caminho.
Onde duas linhas se cruzaram... Cada um segue o seu caminho.
Maria segue de carro, até casa, sentindo que o clímax dos estádios tinha acabado!
O amor já existia!
Só precisava de encontrar o caminho até casa.
Cruzasse as linhas que cruzasse, caminhos que encontrasse, estradas que percorresse, o seu caminho era o mesmo!
E o sinal era o de que, estava sempre a cruzar-se com o caminho, o caminho de casa!
CLR

19
Mai19

Longo Caminho para Casa - Quarenta


Longocaminhoparacasa

40 

Acordou antes das oito, vestiu primeiro a força e depois o top, os calções e os ténis velhos que já contavam bastantes quilómetros.
Em cada passada, acompanhada pelo som da música que lhe soava aos ouvidos, Maria, vingava-se da injustiça, e recuperava o fôlego necessário para continuar.
De volta à rotina Maria sorria e não desistia dos sonhos.
De repente a balança deixa de se queixar e Maria recupera quase o seu peso anormalmente leve.
A falta de apetite, as corridas constantes, os jogos entre amigos, e as idas ao ginásio frequentes, não foram só a forma de se vingar, mas o modo de ultrapassar tal fase no caminho de Maria.
Decide mudar de médica, e decide continuar a lutar pelo sonho.
Luis, continuava a ser o marido mais magnifico do mundo, o companheiro mais presente e o seu maior apoio.
Ambos tinham agora um sonho, um objectivo, que amorosamente negociaram, seguir a saúde de Maria e aumentar a família o mais rapidamente, custasse o que custasse.
Para isso por aconselhamento medico, Maria tinha de aumentar o seu peso, tomar uma centena e meia de vitaminas, diminuir o trabalho, e não descuidar dos exames.
Havia só uma condição para partirem em busca dessa estrada que lhes ensinava o caminho de casa…
Maria tinha de fazer a rotina para que pudessem ter a certeza que aquele monstro assassino do século, não havia renascido para estragar este sonho.
Ela era a prova viva de que se cresce muito quando enfrentamos os nossos medos.
Ela era a certeza absoluta de que entre erros e acertos, fins e recomeços, a vida é feita de tantas felizes coincidências....
Maria trazia com ela aquele brilho nos olhos das pessoas que acreditam mais na beleza das coisas que fazia acontecer, do que no destino que era escrito pelos outros.
Vestia em cada dia o seu melhor sorriso, esperançoso e aberto ao recomeço, até mesmo ao recomeço de si mesma.
Olhava para a vida de forma comovida, mas nunca rendida.
E com as mãos no coração e os pés (bem assentes) no chão, confiava, confiava muito.
Confiava que todo o sol, a lua, as estrelas, os anjos e o seu anjo da guarda, todos eles, em forma de gente boa, entraram no seu pequeno mundo, na sua estrada mais longa, no seu amor maior.
Faziam nela nascer o sentimento de fé e da mais profunda gratidão como sentem os eternamente agradecidos por todas as coisas boas que recebem.
Para uns seria sorte, para outros muita sorte, para Maria, havia de ser sempre um caminho desenhado por si.
CLR
18
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Nove


Longocaminhoparacasa

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      No céu , Maria podia ver mais uma estrela a brilhar…

      Sentia o céu cada vez mais como parte de si…

        É impressionante como nos sentimos à medida que vamos sentindo o tempo a passar por nós. À medida que vamos vivendo a vida, vamos sentindo toda a natureza, como algo que cada vez mais, vai fazendo também parte de nós…  

Cada vez mais a vamos conhecendo melhor, a vamos sentindo como nossa…

         Maria sentia isso ao olhar o céu… De dia podia sentir o calor do sol, admirá-lo e senti-lo com ela…

        Há noite, podia olhar as estrelas a brilharem no manto negro da noite, e sentir a sua companhia…

      Maria tinha perdido o bebé que tanto desejava, mas tinha-lo transformado numa das estrelas que todas as noites podia ver para si brilhando…

       Era uma mulher como tantas outras. Tinha a profissão que quis ter, não era de se queixar da vida, e estando ela já na casa dos trinta e alguns, sentia o desejo que qualquer mulher sente. O de poder sentir o amor de ser mãe…

      Tinha o coração grande, com algumas cicatrizes, mas nenhuma se comparava àquela com que tinha ficado… Podia até viver sem o amor de um amigo, de um homem, mas nunca de um filho…

        Sim, Maria já o sentia como tal… Como um filho, uma semente ou um rebento de todo o amor que tem dentro do si…  Reuniu nele todo o amor que tinha em si. Todas as forças, deu-lhe todo o seu sentimento,  tudo de si…

      Naquela altura, tudo parecia mais calmo, mais sereno… Toda aquela fase de tranquilidade explodiu em poucas semanas. Primeiro, com a noticia de gravidez de risco. Depois com a prenuncio do fim…

         Maria não era mulher de parar.. Nunca foi.

         E não se convenceu que tinha de parar… Agora sobejam-lhe as  ideias de culpa… Mesmo quando os entendidos lhe dizem, que fez tudo certo…  Que  a natureza é soberana. Há sempre algo dentro dela que numa rajada forte e seca de vento lhe diz, podias ter feito mais… O sentimento de culpa mitigado com impotência e raiva é o sangue que lhe corria nas veias…

        Num pulo de semanas se passou para a triste noticia… Mais uma vez perdera sangue, e desta vez, já não havia vida…

        A ideia de ter o seu amor dentro de si a morrer, matava-a. Mas depois a noticia que o seu amor tinha morrido dentro de si, já a tinha morto…

       O amor morreu, a sua dor espelhava-se no rosto e as lágrimas tinham-lhe  partido para o céu…

    O tempo passou, reencontrou as lágrimas. mas aquelas que lhe correm agora no rosto, são o  cumprimento à estrela, que do ventre lhe fugiu para o céu …

CLR

18
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Oito


Longocaminhoparacasa

                             aborto-1

Foi então que numa noite fria de solidão sentida, Maria pegou no diário, ajeitou a caneta e escreveu:

“Durante um, dois ou três meses (às vezes mais), devaneamos o futuro. Apegamo-nos ao ser que começa a ser gerado cá dentro.

Concedemos-lhe a personalidade que na realidade ele ainda não tem e constituímos sobre algo ainda tão embrionário o fardo de um sublime e devaneado futuro.

O mundo estancou. Tal como a minha mente.

 Permaneci, tal como permaneço ali, naqueles momentos, naqueles instantes longos, a tentar arrancar um sentido daquilo tudo.

Porquê, porquê, Porquê?

São perguntas às quais sei que nunca encontrarei resposta.

Abalei sem o futuro nas mãos. Tal e qual como ainda me sinto…

Deixei-o escorregar-me das mãos.

 No sangue que foi correndo, também eu fui perdendo um pouco da felicidade que tinha dentro de mim…

O sentimento de injustiça foi o primeiro a surgir.

Depois veio a negação. Inexistiam sintomas de que algo estava assim tão errado.

Não... Não podia ser tão mau....

Já estava tudo a correr bem....

Porquê tudo outra vez?

Ou porque não foi tudo como da ultima vez?

Um susto....

Não podia ser... Eles só podiam estar errados...

Procurei freneticamente em toda a internet, respostas...Letras, palavras, que me podessem iludir .... 

Procurei ao mesmo tempo que na mente corriam as letras

P O R Q U Ê?

Procurei, procurei, procurei. Procurei, na esperança de encontrar relatos de diagnósticos falhados. Encontrei alguns, mas poucos. 

Mas, no fundo eu sabia qual era verdade…

 E agora, como estou?

Vivo, ou já perdi parte de mim e como estou, também morri?”

CLR

18
Mai19

Longo Caminho para Casa- Trinta e Sete


Longocaminhoparacasa

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As estrelas iluminam a noite, o sol vai iluminando o dia, mas a vida nem sempre faz o sol sorrir e as estrelas brilhar…

A vida nem sempre corre como ambicionamos.

Às vezes os instantes de emancipada fortuna acabam por transformar-se em momentos de dor, em que pura e simplesmente não lhe inventamos o sentido.

A verdade é que a natureza sabe muitas vezes mais do que nós, e age para nos poupar de maior sofrimento no futuro.

A natureza é sábia….

Esta era a frase que Maria mais tinha nos ouvidos…

Ela gostava muito de escrever, mas naquela época nem conseguia falar, quanto mais escrever…

Só conseguia pensar em como a dor se tornou tão sua amiga nos últimos meses, nos últimos anos…

Nos seu olhar podia reconhecer-se o brilho do sofrimento.

No sorriso havia a transparência forçada de quem não consegue esconder a dor...

Pouco falava. No trabalho, em casa, com os amigos, até com os familiares mais chegados... 

Tinha passado a ser um assunto tabú... Como se isso de alguma forma lhe pudesse amortecer o sofrimento...

CLR

17
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Seis


Longocaminhoparacasa

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Maria acorda sobressaltada, o coração a saltar-lhe do peito. Faltava-lhe o ar, e as palavras transformadas em frases, saltavam-lhe dos olhos para a ponta dos dedos.
Senta-se à secretária, abre a página do blog, e começa a transcrever dois belíssimos poemas:

Sobre a morte?
Sobre a morte nada conheço, não sei dizer.
Mas acho que a morte é esquecimento.
E quem parte continua vivendo
nas lembranças
e nos corações de quem fica.
Augusto Branco

Morte em Vida
“Não Chore Pelos Mortos que deixam Saudades e Admiradores...
Pois Eles Viveram a Vida... E Agora Descansam ao Lado do Senhor...
O Pior é Estar vivo e esquecer-se de Viver a Vida...
Lamente por Estes...!
Rick Jones Anderson

Não havia mais nada a decidir.
Maria estava confiante, e lutava como a guerreira que sempre foi.
Calçava as luvas, e as negras eram das agulhas.
Calçava os ténis, e as dores não eram dos treinos exagerados, mas do veneno que lhe percorria o corpo.
Obrigava-se a comer. Mas de cima do seu 1,70cm, a balança não pesava mais do 50 a 55 quilos.
Passaram os meses frios, com calor, e regressam os meses quentes com frio. 
Passaram meses, ganharam-se sorrisos mas findos os quais, nada parecia florir para duplicar o sorriso a Maria.
No entanto, no céu já nascera uma estrela, que já estava dentro de si…
- Repentinamente, a roupa deixara de lhe servir, a fome parecia galopar o seu desejo de manter a linha.
Aos enjoos, Maria não dava valor, seriam fruto dos tratamentos, as dores de cabeça, não passavam do fruto das habituais enxaquecas… 
Ou afinal, não…
Afinal havia uma estrela a nascer dentro de si, mas Maria não sabia.

CLR

 
17
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Cinco


Longocaminhoparacasa

35

Aquele caminho não foi longo, mas foi demasiado doloroso para ser esquecido.
Mas pior do que isso, foi a ausência. A ignorância, e a omissão.
O viver constantemente no teatro. Viver no reino da representação. Representação de sorrisos, de alegrias, de forças.
Mas havia pior…
Tal como a lua desaparece ao raiar do dia, também ela se escondeu nos raios de sol…
O desaparecimento do anjo odorava a mau pressagio…
Maria deixou de ver o sol, de sentir os seus raios a queimar-lhe o corpo e a derreter-lhe a alma…
Hoje, Maria olha para o Céu, e nas estrelas que lhe molham o rosto recorda, o sol, o anjo e as suas estrelinhas….
Do rosto escorrem-lhe lágrimas com o sal da tristeza e o açúcar da paz… Daquela paz de quem está bem com a sua consciência…
Maria parece que finalmente reencontrara o caminho seguro que a levara até casa.
Sorria escondendo a tristeza e a falta de alegria que foi afogando na ideia de construção da família, que tanto desejara… E que repentinamente se transforma no projecto prioritário e urgente.
Aos poucos foi reconstruindo os cacos do amor que se tinha apagado…
Abriu o coração e deixou-o amar.
Agora, Maria vive um dia de cada vez.
Percebendo que na vida há muitas injustiças e sofrer faz parte dela, como sofre quando pensa nas estrelas que tem no céu…
Os meses foram passando, e as mágoas foram secando. O sorriso foi abrindo até poder sentir a primavera.
O brilho das flores, o calor do sol, o amor do mar e o calor da família que tanto sonhara ter.
Todos os meses Maria rezava a Deus.
Pedia paz e amor, para todos e ao seu anjo, pedia ajuda para superar aquela fase tão difícil e dolorosa.
O pedido era condicionando à concessão do desejo do bisneto que tanto desejavam, só assim a vida fazia sentido para Maria. Só assim aquela luta fazia sentido.
De que servia a vida, se não fosse para dar frutos, e deixar sementes?
Maria não queria deixar mais nada se não o amor. E haveria mais legado do que o amor dos filhos? Conceber, ver nascer, crescer, e amar?
Naquele momento, Maria pensava muito na Morte, no que seria, como seria.
Será que apenas o corpo tem fim?
De repente vem-lhe à lembrança o seu anjo, pensa… Sorriu.....Os anjos estão juntinhos, e de repente dissipavam-se todas as dúvidas, e, sim, apenas o corpo se vai, porque o amor, a lembrança, as recordações o sorriso, esse fica-nos sempre no coração.
Para Maria a luta só fazia sentido se fosse para construir algo, caso contrario, queria sentir novamente o colinho do seu anjo. E o aperto de bochechas do seu avó….
Só assim fazia sentido, por isso tomou a decisão mais difícil da sua morte.
Lutar!
 
CLR
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Quatro


Longocaminhoparacasa

                34

 

Luis era um verdadeiro sapo.
De cima do seu quase 1,90m de altura, amável e educado num dos melhores colégios da margem sul.
Dividiu a infância entre uma quinta de familia, um colégio, e alguns lugares tradicionais da zona.
Uma verdadeira caixinha de surpresas.
Foi mentor de uma radio amadora que conseguiu estar no ar clandestinamente enquanto houve vontade de continuar o projecto.
Criou e dirigiu alguns projectos sociais, alguns núcleos, e mesmo enquanto estudante foi membro de varias associações, inclusive da associação de estudantes..
Um jovem de ideias e convicções politicamente muito fortes.
Fruto da vinculação a um partido politico de que era simpatizante. Simpatizante porque a sua rebeldia não permitiu maior vinculação.
Para Maria, Luis era um diamante em bruto. 
Era necessário ajuda-lo a ver-se ao espelho, para que desse mais valor ao seu fisico.
Na verdade Maria adorava o carinho, o apoio, a atenção, a disponibilidade que aquele homem sempre tão ocupado, conseguia sempre encontrar para estar com ela, para a mimar, para a cortejar.
Sentia que Luis não tinha consciência do seu potencial. E para Maria bastava apenas, um corte de cabelo diferente, um par de trapinhos, e aquele sapo descuidadamente disfarçado, depressa se transformaria não num Deus grego, mas num verdadeiro homem sedutor, demasiado atraente e espectacular para passar despercebido a qualquer rabo de saia.
Luis, fez da Universidade a sua própria casa, e descuidou.se de si. Deve ter parado no tempo há pelo menos 5 anos.
Tornou-se num amigo, amante e namorado demasiado atencioso, preocupado, e carinhoso para não lhe conquistar o coração.
Passados poucos meses não era só o seu físico ou a sua postura, já havia mais qualquer coisa. 
Luis tinha-se tornado naquilo a que se pode considerar de um belo homem, excelente companheiro e amante.
O apoio e a segurança que Luis lhe dava deixou Maria verdadeiramente seduzida… Louca, cheia de vontade para lutar, correr mais aquele caminho, que tão difícil se revelava. 
CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Três


Longocaminhoparacasa

                                           33

Maria tinha voltado a sonhar como seu anjo mas naquela noite, sentia aquele apoio duplamente maternal ao rubro.
- Não tens de te preocupar, só tens de seguir o teu coração, e cuidar de ti meu doce, cuidar de ti! Percebes o que te quero dizer? Faz o que te propõem, mas tudo de olhos abertos. Decide com a cabeça minha querida.
Maria acorda sobressaltada, com o coração a saltar-lhe do peito.
Aconchega a cabeça na almofada e agarra-a com tanta força, que sente estalar cada osso que tem nas mãos. 
E num soluço de grito molhado, sente o aconchego do seu anjo na cabeça.
Aliviada Maria, sente que tomou a energia necessária para seguir em frente e enfrentar o que fosse preciso.
De repente toca o telemóvel, Maria.
- Estou amor, é só para te mandar mais um beijo, e já agora saber onde nos encontramos, pergunta-lhe Luis
- Não sei., responde-lhe Maria
- Já estou a caminho, apanho-te em tua casa, estou a conduzir tenho de desligar, beijo, até já, responde-lhe Luis apressadamente não porque estava a conduzir, mas porque temia que Maria mudasse de ideias. 
Após bastante insistência, Maria tinha aceite que Luis a acompanhasse na consulta que tinha marcada com a médica.
Maria sentia o peso do apoio no braço que tinha pelos ombros. 
No percurso até ao carro, de vez em quando, Luis, puxava Maria até si, e dava-lhe um beijo na cabeça, segredando, vai correr tudo bem vais ver. Não vai acontecer nada, vai correr tudo bem!
Entraram no carro e o silêncio permanecia. Só era interrompido pelo olhar que Luis lhe deitava aquando de cada paragem que teve de efectuar aos sinais vermelhos. 
-Estás bem?, perguntava-lhe Luis, seguido de mais um abraço e um beijo.
Hein?
- Sim. disse Maria em voz sumida, esboçando um sorriso numa tristeza e medo muito mal disfarçadas.
- Tem calma, ela é uma excelente médica e foi Directora de Serviço do IPO, pelo que é muito competente, não achas? Não confias nela? pergunta-lhe Luis, numa tentativa de desbloqueio do silêncio de Maria.
Fala comigo amor ! Maria, estás bem? insiste Luis, enquanto estaciona o carro.
- Sim, responde Maria. 
Quero pedir-te uma coisa, solicita-lhe Maria
Se não te importas, eu subo sozinha, porque estou a precisar de dormir, e ficar sozinha comigo e com o meu pensamento.
- Não, Maria. Eu prometo que não te digo mais nada. Faço-te o jantar, levo-te o Rex à rua e fico no meu cantinho. Jantas sozinha no quarto se quiseres, e se quiseres até posso dormir na cama do Rex. Agora não me peças para te deixar sozinha hoje, por favor.
Eu escondo-me na dispensa, ok? Responde-lhe Luis em tom demasiado agudo e convicto.

CLR

16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Dois


Longocaminhoparacasa

                                         32

Um dia quando olhares para trás verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste!
Não podia estar!
Aquilo não era normal, estava tudo menos bem.
Mal aqueceu a cadeira, resolve pegar nas pastas dos processos denominados por si “112”, e saiu porta fora.
Abriu a porta de casa, e foi em direcção ao espelho da casa de banho onde tentou reconhecer aquele rosto, mas sem sucesso pensou, tenho de resolver isto.
Sentou-se na secretaria e ligou o computador.
A piscar a janela do Messenger, 
- Bom dia, beijo
Tem um bom dia, como estás sentes-te melhor?
- Olá bom dia, então como estás?
- Eu estou bem, e tu estás melhor? - pergunta Luis em modo preocupado e afectuoso.
- Estou hoje até fiz gazeta!, responde Maria a tentar amenizar a coisa.
- A sério, jura? A sério? Só falta dizeres que até já foste fazer a tua corridinha diária matinal!
- Não isso não fiz.
- Quando vais ao médico? Quando vais fazer os exames? - pergunta Luis angustiado.

CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta e Um


Longocaminhoparacasa

             31

Maria reconheceu-a de imediato…
No sonho também era noite, a lua estava linda e estava a chover…
Ela esboçava um sorriso lindo, e com a mão, aconchegava a cabeça de Maria, num gesto puro e doce de empatia e compreensão.
Ela foi muito feliz!
Viveu uma vida longa de idade e bastante de sorrisos. Mas curta, porque fazia tanta falta a Maria. 
Com ela Maria teve experiências únicas e maravilhosas, que nos momentos de nostalgia regressam para lhe preencher e inundar o coração de lagrimas molhadas. 
E as memórias, eram tantas e tão boas, que ela não as queria deixar ir. Não queria nem quer! Mas, a vida dela hoje não é aqui! , pensa Maria...
Maria foi literalmente apedrejada por palavras que jamais pensou um dia ouvir. Palavras que lhe feriram não os sentimentos, mas o coração!
Ela morreu, por dentro e por fora, pelo que ouviu do seu anjo.

" Minha querida, minha menina, meu amor, 
Há dias em que pomos vírgulas, colocamos reticências em que pomos pontos finais, e há dias em que temos necessidade de virar a página, tens de cuidar de ti, não te descuides coração!
Não tenho o meu colo preparado minha querida. 
Um dia quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste!"

A luz do coração de maria por momentos apagou-se. 
No sonho Maria podia ver o seu próprio coração, e tinha naquele preciso momento a cor da noite, a cor das cinzas, de algo que tinha acabado de se queimar. Maria chorava não só em sonho, chorava, chorava por fora e por dentro do seu coração.
Maria acorda.
Acordou do sonho e da vida ou para a vida.
Levantou-se e depressa sentiu a água a lavar-lhe não os braços, o rosto, ou os pés mas a alma.
Pega na chave do carro, e seguiu.
Desceu as escadas do metro com facilidade que já não as conseguiu subir.
Chegada ao cimo das escadas pensou se teria fôlego suficiente para seguir a Avenida até ao escritório, mas lá conseguiu.
- Bom dia doutorinha, está tudo bem? Pergunta a Carmen
- Bom dia Carmen, sim está tudo bem, responde a Maria
- De certeza doutorinha, não parece?
- Sim está tudo, obrigada

CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Trinta


Longocaminhoparacasa

                    30

No caminho, Maria seguia o pensamento que as ideias soltas permitiam. A ideia da rosa tornou-se persistente na sua memória de medo e alegria pintando-lhe as ideias.
A rosa era linda. Vermelha. Mas a esperança que ela simbolizava, essa esperança tinha murchado…
Maria estava com medo do reencontro, mas também se sentia a transbordar de felicidade. De tal modo que parecia sentir um tremor de terra dentro de si.
Mal chegou, procurou logo o carro dele. Não estava. Ainda não tinha chegado. Ela tinha chegado primeiro, como desejava que acontecesse.
Subiu apressadamente, fez umas festas ao Rex, enquanto o acompanhava à rua, para que fizesse as necessidades o mais rapidamente possível. Ele parecia não cooperar, parece que cheirava tudo quanto é arvore, e parecia louco atrás da sua princesa canina com cio.
- Despacha-te Rex, implorava Maria.
- Pronto, já chega vamos embora, que a dona está com pressa.
Entrou em casa, e pôde ver o seu ar de angústia no espelho do hall.
Tenho de me acalmar, estou demasiado ansiosa… pensa Maria
Um toque no telemóvel, faz com que corra para a janela, levando os móveis que se atravessaram no caminho. Só para o poder espreitar a sair do carro, e o admirar…
Lindo como sempre… Eu adoro este Homem….. Pensa Maria.
Podia sentir o elevador a subir, e contar os andares, como se lá viesse. Mal abre a porta, a sua mente foi inundada por uma avalanche de tinta branca, o pensamento pára, e só sente as batidas dos dois corações juntos num abraço molhado de beijos e apertos de amor repleto de saudade.
Passados uns minutos, ficam os dois de lábios a tocarem-se olhando um ao outro nos olhos, como quem diz, amo-te tanto.. Mas tanto…
Soam palavras em duo:
- Amo-te tanto Nina/no.. Tive tantas saudades tuas. Estava tão ansioso/a por te ver!
Gargalhada total!
-Eu não acredito nisto! Será possível que possamos falar assim os dois, sempre um ao outro, espontaneamente as mesmas coisas, ao mesmo tempo?
-Mas o que é isto amor? O que é isto? Pergunta-lhe ele.
Num gesto as roupas voaram, e saciaram os corpos sedentos de amor, ali mesmo…
Abraçados um ao outro na cama, gozavam das sensações de corpo exausto, e sem forças para ir á cozinha buscar algo que lhes alivie a sede e alimente repondo energia aos corpos cansados. Mais um beijo, e são interrompidos..
Toca o telemóvel dele, são nove da noite.
-Desculpa amor.
-Tudo bem, atende. Diz Maria tentando sorrir
- Já volto amor. Desculpa. Diz ele, enquanto num pulo, sai da cama e se afasta do quarto.
Mal ele saiu da cama, Maria agarra-se com toda a força à almofada libertando a força da sua raiva e de tristeza…
Sentia-se frágil e carente… Mas, não podia chorar, nem mostrar parte fraca! Que bem lhe sabia o colo do seu anjo… O abraço… A companhia… O chá… O seu aval…
Ela tinha sido uma perda incrível… Maria ficara inconsolável quando viu o corpo ser entregue à terra… Recusava-se a aceitar… Ficou dias e dias assim… Não vivendo. Recusando-se a aceitar que iria perder para sempre o corpo da mulher que tanto lhe ensinara, que tanto amor lhe ensinara a dar…
Um dia, num sonho acordado sentiu uma voz que lhe era familiar, uma imagem numa claridade cegante… Reconheceu-a de imediato…
Era noite, a lua estava linda e estava a chover…
"Há dias em que pomos vírgulas, colocamos reticências em que pomos pontos finais, e há dias em que temos necessidade de virar a página"

CLR

 
16
Mai19

Longo Caminho para Casa - Vinte e Nove


Longocaminhoparacasa

29Acordou num sorriso molhado…

Era hoje o dia!
Sentia-se feliz… Levantou-se vagarosamente, e correu para o espelho da casa de banho, onde pôde ver no rosto, a alegria misturar-se com o medo.
Sentia o coração apertado. Depois de tudo o que aconteceu. E hoje era a primeira vez que Maria ia ver o seu amado, depois de ter dado o tal passo em frente, por isso sentia-se aliviada mas com medo.
Tinha medo de estar errada quando decidiu deixar a vida estável que tinha, por um amor incerto, uma relação censurada…
Sentia-se estranha.. E não se devia ao facto, de só ela ter dado o tal passo. Até porque ela nunca pressionou nesse sentido! Ele sempre a fez sonhar com enredos de romance… De vida a dois… As palavras mascaradas de esperança sempre existiram.. E viver o futuro era o lema.. Esperar que o tempo passasse e que um dia tudo mudasse!
Mas, Maria sentia um aperto no coração. Pressagiava, que nem tudo lhe tinha sido narrado… No fundo sabia que tudo seria ilusão… Mas a outra parte dela acreditava no sonho, no amor, no coração! Ela sentia… Sentia-se estranha…
De repente o pensamento de Maria ilumina-se pela recordação que tinha do sorriso dele… No espelho vê a sua imagem a transformar-se na rosa que guardava… A rosa, continuava consigo… Tinha-a guardado para sempre no seu coração… Tinha-a ali ao lado, a longos quilómetros de distância, mas estava presente… Sempre presente… E chegara o momento de se verem, de se tocarem, de se sentirem com a mudança!
Resolveu mimar-se para ele…
Não prescindiu do banho caprichado, de uma hora para escolher a indumentária e da imprescindível sessão de massagens no Saldanha.
Estava no escritório a contar os minutos até as 16h. As folhas dos processos bailavam-lhe nas mãos. As páginas dos códigos moviam-se sozinhas, e o texto dos artigos era sempre o mesmo, “Amor estou a passar a ponte, estou a chegar”
- Dra. Eu sei que me pediu para não lhe passar mais nenhuma chamada, mas tenho o senhor engenheiro Fred ao telefone.
- Carmen, já disse que eu estava?
- Não, Dra. Disse que estava de saída mas não sabia se já tinha saído.
- Já saí… Já estou a caminho de casa. Agora vou pegar no processo do AMOR,..
- Desculpe?
-Até amanha, Carmem. Bom fim de semana…
- Então amanha a Dra não vem?
- Não, amanha vou ter reunião o dia todo, do processo mais complicado que tive até hoje. O do Amor! Qualquer coisa, dê-me um toque para o telemóvel, se faz favor. Bom fim de semana!.
- Ah ah ah está bem dra, bom fim de semana. Divirta-se que bem precisa!
Vou divertir com certeza Carmem.
- Amor, já estou a passar a ponte! Beijo com AM, que já to vou dar pessoalmente, Amo-te

CLR

 

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